Por:Tony Lucas
O São João do Nordeste, outrora o maior terreiro de resistência cultural do país, virou um balcão de negócios formatado para o agronegócio pop, o axé e o sertanejo universitário. O grito de alerta não vem de críticos de gabinete, mas de quem carrega a história da música nordestina nas costas. Nomes como Maciel Melo, Santanna, o Cantador e Flávio Leandro (que chegou a anunciar uma pausa nos palcos cansado de guerrear contra o sistema) têm subido o tom contra a descaracterização, a elitização e o que consideram uma imoralidade financiada com o suor do contribuinte nas megafestas de Caruaru e Campina Grande.
O diagnóstico dos poetas é cirúrgico e doloroso: a fogueira autêntica foi apagada para dar lugar ao espetáculo do “rebolado até o chão”, expulsando o forró agarradinho e transformando a festa do povo numa experiência excludente de camarotes VIPs.
Do Terreiro ao Front Stage: A Exclusão do Povo
A queixa principal dos defensores do forró tradicional bate na privatização velada do espaço público. Se antes o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga (Caruaru) ou o Parque do Povo (Campina Grande) eram territórios democráticos onde o herdeiro e o trabalhador dividiam o mesmo par de chinelos na poeira, hoje a geografia desses eventos foi redesenhada pela ganância das grandes produtoras de eventos, em consórcios endossados pelas prefeituras.
A Ditadura do Front Stage: Áreas nobres, coladas no palco, são cercadas e transformadas em “front stages” e camarotes privados com ingressos que chegam a custar centenas de reais.
O Povo no “Chiqueirinho”: Quem não tem dinheiro para pagar os valores abusivos da elite é empurrado para trás de tapumes, assistindo ao show de longe, muitas vezes por telões.
Artistas da Terra na Madrugada: Enquanto atrações multimilionárias de fora — que nada têm a ver com a tradição junina — ocupam os horários nobres e recebem cachês astronômicos, os sanfoneiros, trios pé-de-serra e poetas locais são jogados para palcos alternativos ou horários ingratos, quando o público já está indo embora.
“O São João virou um festival de música pop de inverno. Estão matando a identidade de um povo para vender canecas de cerveja patrocinada em área VIP.”
— Desabafo frequente nos bastidores dos defensores do forró pé-de-serra.
Ilegal e Imoral: A Farra com Dinheiro Público
A crítica mais grave de Flávio Leandro, Santanna e Maciel Melo toca na ferida jurídica e moral do modelo atual: o financiamento público da exclusão.
As prefeituras injetam milhões de reais dos cofres municipais, via emendas e verbas de secretarias de cultura, para erguer a estrutura dos eventos e pagar cachês de megaestrelas. No entanto, o retorno e o usufruto dessa estrutura são entregues a empresários privados, que lucram alto vendendo ingressos de camarotes exclusivos dentro de bens públicos.
O Ministério Público tem sido acionado ano após ano em Pernambuco e na Paraíba para investigar as irregularidades contratuais, a venda casada de fichas e o abuso do espaço que deveria ser 100% gratuito. Financiar uma festa com dinheiro do povo para que apenas uma elite usufrua do melhor espaço não é apenas imoral; beira a ilegalidade na destinação de recursos públicos, desvirtuando a Lei de Licitações e o princípio da finalidade pública.
O Forró Agarradinho Pede Socorro
O que Maciel Melo e seus pares denunciam é o assassinato cultural da “festa da colheita”. O São João, que historicamente celebra a chuva, o milho e o som da sanfona, da zabumba e do triângulo, foi pasteurizado. A dança de aconchego, o passo marcado do xote e a poesia matuta foram substituídos pelas batidas eletrônicas do piseiro e coreografias de redes sociais feitas para chacoalhar, perdendo o romantismo e o mistério do verdadeiro forró de latada.
As grandes festas juninas do Nordeste correm o risco de virar apenas mais um festival de música genérico, igual a qualquer outro realizado em São Paulo, Goiânia ou Rio de Janeiro. Enquanto a caneta dos prefeitos e o bolso dos grandes produtores ditarem o ritmo, a resistência continuará nas cordas da viola de Maciel, no gogó de Santanna e na poesia de Flávio Leandro, que insistem em lembrar que o São João é do povo, e não dos donos de camarote.
Para compreender a essência do forró tradicional defendido por esses artistas, acompanhem seus trabalhos e suas posições nas redes sociais. Basta uns acordes entrar pelos seus ouvidos e sentirá o que é altenticidade, verdade musical e cultural. Viva o forró!
