Infantino completa 10 anos no comando da Fifa com promessas cumpridas
Recordes financeiros e Copa de 48 seleções são trunfos do presidente, em meio a questões éticas. Crédito: TV Estadão
Gianni Infantino, presidente da Fifa, desistiu de colocar em votação a criação da Fifa Foward Enterprise (FFE), empresa que administraria as competições da entidade e receberia investimentos por meio da venda de 20% de suas ações, mas o recuo não evitou danos. Mesmo abandonada, a ideia continua reverberando de forma negativa entre algumas confederações nacionais e continentais. Outras, contudo, reafirmaram a confiança no trabalho do ítalo-suíço, que concorre à reeleição em março de 2027.
O plano controverso, cuja concepção envolvia o americano Joshua Kushner como principal investidor, foi o estopim de um desconforto que já estava em ebulição há algum tempo. A vontade de ampliar para 64 o número de seleções na Copa de 2030 e a polêmica anulação da suspensão de Balogun, da seleção dos Estados Unidos, durante o Mundial deste ano, após ligação de Donald Trump a Infantino, ajudaram a construir este cenário.
Até mesmo membros da atual gestão da Fifa soltaram a mão do presidente. Kevin Lamour, diretor de operações da entidade, fez críticas públicas à FFE. “É o projeto de uma pessoa só. Este projeto não apenas não pode seguir adiante, como chegou a hora de os líderes políticos do futebol fazerem as perguntas certas e tomarem as decisões corretas”, afirmou.

Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante a final da Copa do Mundo de 2026. Foto: Werther Santana/Estadão
Em matéria publicada no dia 17 de julho, antes do anúncio da FFE, o The Guardian levantou que mais de 200 das 211 federações nacionais já haviam enviado cartas de apoio formal à candidatura de Infantino.
Depois de toda a polêmica, entidades europeias passaram a retirar o apoio à reeleição do atual presidente, caso de Suécia, Inglaterra, País de Gales e Sérvia. Liderados por Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, os opositores tentam viabilizar uma candidatura. A Concacaf também está firmemente situada como oposição e tenta emplacar o canadense Victor Montagliani, seu presidente, como candidato.
Apoio tem base na África e simpatia de asiáticos
Um dos alicerces do projeto de reeleição de Infantino é a Confederação Africana de Futebol (CAF), alinhada ao atual chefe da Fifa e que possui 54 votos dos 211. Quando divulgada a ideia de constituir a FFE, a entidade fez um pronunciamento neutro, dizendo que iria consultar seus membros para avaliar a proposta.
No momento em que Infantino recebia críticas em razão do caso Balogun, o presidente da CAF, Patrice Motsepe, fez uma declaração pública para defendê-lo. “Gosto do seu profundo amor pelo futebol, do seu profundo compromisso com o futebol em nível global e do seu apoio à África”, disse.
Enquanto defendia o projeto de vender ações de participação nas competições da Fifa, o ítalo-suíço apelou ao sucesso de Cabo Verde na Copa deste ano para se justificar. Afirmou que o objetivo era aumentar as receitas da Fifa e ampliar os investimentos destinados às 211 associações nacionais, especialmente às federações de menor expressão.
“Uma década de investimentos ajudou países como Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão a disputar a Copa do Mundo pela primeira vez. Queremos ajudar a criar os próximos Cabos Verdes”, comentou
Dentro do órgão africano, houveram manifestações independentes de federações nacionais em apoio a Infantino. A mais relevante delas é do Marrocos, principal potência do futebol africano na atualidade e sede da Copa de 2030 ao lado de Espanha e Portugal. O país também será sede do 77º Congresso da Fifa, evento durante o qual ocorrerá a eleição presidencial em março de 2027.
“A decisão do presidente da Fifa reflete sua visão de dar prioridade à unidade e à coesão entre as federações membros, por meio de uma abordagem participativa que visa desenvolver o futebol”, disse o presidente da federação marroquina, Fouzi Lekjaa, em comunicado, sobre o abandono da ideia de concretizar a FFE.
Infantino também tem encontrado apoio em alguns países asiáticos, embora a Confederação Asiática de futebol tenha classificado a condução da proposta de trazer investidores privados para as competições como “sem transparência” e “inaceitável”.
Catar, Kuwait, Emirados Árabes, Butão e Sri Lanka emitiram comunicados em que declaram apoio ao presidente da Fifa, no mesmo tom da nota do Marrocos, parabenizando-o por voltar atrás e desistir do projeto.
Cada um desses comunicados foi compartilhado por Infantino nos stories de sua página oficial do Instagram. No mesmo espaço, ele compartilhou publicações feitas por astros do futebol elogiando a Copa do Mundo, semanas atrás, antes de toda a polêmica envolvendo a FFE.
Um dos compartilhamentos é de uma publicação feita por Ronaldo Fenômeno no dia 16 de julho, após as semifinais do Mundial. “Que espetáculo dentro e fora de campo a FIFA está entregando mais uma vez!”, diz o brasileiro ao longo do texto. Postagens do espanhol Andrés Iniesta e do argentino Kum Aguero, igualmente anteriores à proposta controversa, também foram repostadas pelo cartola.
E a Conembol?
Enquanto algumas federações buscaram se posicionar rapidamente, o assunto Infantino está nebuloso na América do Sul, ao menos publicamente. A Conmebol foi a última a se posicionar enquanto a proposta ainda estava de pé. Quando o fez, foi para emitir um comunicado neutro, em que dizia que iria convocar os membros para deliberar, poucas horas antes de a Fifa informar que havia desistido de levar a FFE adiante.
Embora não tenha se posicionado contra ou a favor, o discurso da Conmebol trouxe sinais de alerta sobre a “essência do esporte”, mas sem atacar diretamente a entidade. No Brasil, a CBF não se manifestou em nenhum momento, seja antes ou depois da decisão. O certo é que, com 10 países-membros, a confederação sul-americana é a de menor peso para as eleições da Fifa.
Em seguida, na lista crescente, a Confederação de Futebol da Oceania é a segunda menor, com 11 membros. A posição pública dela também foi de neutralidade, com a estratégia de ganhar tempo a partir de uma reunião de consulta com órgãos nacionais que a compõe.

