InícioCulturaPra Ficar de Olho: um dedo de prosa com Renan Benini

Pra Ficar de Olho: um dedo de prosa com Renan Benini

Há quem diga que o mineiro cultiva o silêncio para, no momento certo, assustar o mundo com o tamanho do que produziu em segredo. Renan Benini, conhecido pelo barulho visceral e pelas paredes de distorção que levanta há anos na Lupe de Lupe, passou mais de duas décadas deixando que melodias escritas na adolescência, no piano de sua avó, curtissem o tempo necessário para virar bicho grande.

O resultado desse processo é São Francisco, 31, seu recém-lançado primeiro álbum solo, que completou um mês de vida no último dia 8. Mas o sossego dura pouco: em agosto, ele junta forças com o parceiro de banda Vitor Brauer e com a intensidade dramática de Jair Naves (Ludovic) para rodar o país em um formato cru de power trio.

Tivemos a oportunidade de conversar com Renan sobre desapego, a calmaria que assusta mais que a microfonia, e o orgulho de fazer história longe dos holofotes do mainstream – curiosamente, um dia antes do álbum completar um mês no mundo, afinal, isso é algo Pra Ficar de Olho. Descubra sobre e aproveite o dedo de prosa abaixo.

Bora lá?

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TMDQA! Entrevista Renan Benini

TMDQA!: Renan, muito obrigado por me receber! Antes mesmo de começarmos o papo, eu queria propor uma reflexão. Amanhã, curiosamente, completa um mês o lançamento de São Francisco, 31. Como estão os sentimentos? Como é ver esse trabalho no mundo já que, como você mesmo diz, é o trabalho de uma vida?

Renan Benini: Cara, está sendo um passo de cada vez, tudo nesta experiência solo está sendo diferente para mim. Eu estou na estrada há muito tempo como membro fundador da Lupe de Lupe – fomos eu e o Vitor que tivemos a primeira ideia, conversamos e montamos a banda. Tenho muita bagagem, mas sempre fiz tudo pela Lupe, minha única experiência fora tinha sido o lançamento de um EP (que inclusive pretendo relançar como disco no futuro). Fora isso, é tudo muito novo para mim e para quem está ouvindo.

Fiquei muito fissurado na criação e na produção desse álbum. Agora que está no mundo… bom, está no mundo! É um processo gradual. Algumas pessoas estão chegando, os feedbacks têm sido muito bons, mas o propósito principal do disco não era apenas a audição do público. Ele faz parte de um processo criativo meu que é muito antigo.

TMDQA!: Inclusive, eu queria muito saber: se o adolescente que sentava no piano da sua avó pudesse ouvir o arranjo final de dez minutos da faixa-título, gravado pelo adulto de 36 anos, qual parte você acha que ele acharia mais estranha ou ousada? Você sentiu que precisou pedir licença ao seu “eu” do passado para alterar essas melodias?

Renan Benini: Boa pergunta, muito curioso! Eu acho que, no fundo, ainda sou aquele adolescente de 15 anos. Ninguém muda de verdade, a gente se altera. Gosto daquela reflexão de que somos como um bolo infinito: você tem o núcleo ali e vai ganhando camada por camada, mas as estruturas antigas não se perdem. Acho que ele ia curtir, porque eu apostei nas referências mais piradas que já ouvia na época.

Eu me lembro exatamente de quando tinha 14 ou 15 anos, de sentar no piano da minha avó e tirar aquela introdução, que na verdade é uma escala em oitavas – eu fico repetindo a nota Fá em quatro oitavas diferentes. Lembro que mostrei isso para um amigo na época, logo após tirar “Mellon Collie and the Infinite Sadness“, dos Smashing Pumpkins, no piano. Esse meu brother, que também gostava de Pumpkins, ouviu e disse: “nossa, Renan, isso soa muito como música de igreja, bem cristão, né?”, e eu brinquei: “Total!”. Mas respondendo à pergunta, acho que o adolescente de 15 anos aprovaria o resultado.

TMDQA!: Na primeira resposta você mencionou essa experimentação, o que é muito evidente, mas chega a ser curioso, afinal, na Lupe de Lupe o som é uma parede de ruído, uma urgência catártica, e neste disco solo você traz espaço, cordas e silêncio. Como foi o exercício psicológico de não preencher os vazios com microfonia? O silêncio te dá mais medo do que o barulho?

Renan Benini: Não acho, muito pelo contrário. Eu acho que tudo se resume a uma escolha estética. Gostei tanto de fazer este disco e estou entusiasmado com a carreira solo justamente por poder explorar outros caminhos.

Quando qualquer um de nós compõe uma música, normalmente começa no violão, testando acordes com nona ou suspensos, às vezes num clima que lembra até uma bossa nova. Na Lupe, isso vira outra coisa por causa da identidade e das escolhas estéticas que construímos na banda ao longo de tantos anos. É ótimo experimentar essa outra vertente, algo que sempre existiu em mim e que agora, na carreira solo, consigo desenvolver melhor. Posso explorar outros mundos.

TMDQA!: Você compôs e maturou muito desse processo em Muriaé, mas gravou no estúdio Frango no Bafo, em Belo Horizonte. Como a distância e o deslocamento na estrada entre o interior e a capital moldaram o ritmo e a paciência do disco? O isolamento de Muriaé mudou, por exemplo, o sotaque dessas canções?

Renan Benini: Isso foi excelente, porque o deslocamento me dava um intervalo necessário para refletir sobre o que estava fazendo. Nós tínhamos definido que a gravação seria no Frango no Bafo com o Thiago Corrêa e o Henrique Matheus, e que o Leonardo Marques faria a mixagem. Como eu moro no interior de Minas Gerais, não faria sentido gravar aqui, até porque meus amigos de infância nem vivem mais na cidade.

Ir para BH fez com que o disco, que poderia ter sido gravado em um mês e meio, levasse dez meses para ser concluído, mas isso foi ótimo. Esse tempo influenciou a voz e a forma das canções. “Valsas de um bolero“, por exemplo, seria uma música muito reta. Lembro que foi em uma viagem de ônibus – eu costumo sair do interior às 21h30 e chegar na capital às 6h da manhã -, naquele clima de insônia de estrada, que me veio a ideia de colocar um theremin, aquele instrumento de frequência. O isolamento e a viagem ditaram esse ritmo. A maioria das letras eu escrevi no interior, trabalhando em cima das prévias que trazia do estúdio. Minha infância e adolescência foram aqui, então foi um casamento feliz e natural.

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TMDQA!: Me preparando para nosso papo, revisitei o disco e li outras entrevistas suas. Uma declaração sua me marcou muito: você disse que prefere a crueldade das famílias que brigam e se estruturam à falsidade das “famílias artigos de decoração”. Musicalmente, como você traduziu esse conflito e a proteção familiar em faixas como “Em família”? Onde você encontra tensão na calmaria deste disco?

Renan Benini: Acho que há um pouco disso em cada faixa, flutuando na dinâmica do álbum como um todo. Em São Francisco, 31, minha intenção foi contar uma história. Quem escutar o disco com atenção vai perceber essa narrativa musical: ele começa lento, apenas com voz e violão, passa por momentos mais folk e estruturados, entra no rock e termina em uma muralha sônica repleta de camadas.

Sobre a declaração, eu prefiro mil vezes uma família ou qualquer relação que seja viva, real, do que algo puramente estético e de fachada. Musicalmente, estamos sempre quebrando e transformando padrões que julgávamos definitivos. Tentei traduzir essa evolução na montagem da tracklist – o que é um processo difícil demais, meu Deus. [risos] Busquei traçar um crescendo que mostrasse as diferenciações do amadurecimento musical de alguém. A arte é viva, e tentei imprimir isso da minha forma.

TMDQA!: Além do disco completando seu primeiro mês de vida, curiosamente, daqui a um mês, você cai na estrada novamente em uma turnê com o Vitor Brauer e o Jair Naves. Juntar vocês três é quase como tentar engarrafar uma tempestade. Como surgiu a ideia desse formato de power trio? Quem assume qual papel na cozinha do palco e o que podemos esperar dos arranjos? Teremos versões desfiguradas e pesadas das músicas de São Francisco, 31?

Renan Benini: Essa parceria é algo que, no fundo, sempre esteve para acontecer. O Vitor vive fazendo turnês com muita gente, e sempre conversávamos sobre rodar juntos. No ano passado, enquanto eu ainda gravava o disco e estávamos na estrada com a Lupe de Lupe, o assunto ganhou força.

Queríamos um terceiro nome e pensamos no Jair, de quem sou muito fã, e o Vitor também. Recentemente, a Lupe fez um show pontual e, logo após, saímos para comer comida tailandesa: eu, o Jair e o Vitor [risos] Uma situação totalmente aleatória, e ali fechamos os detalhes da turnê. O formato vai ser muito louco e minimalista: o Vitor vai tocar bateria usando apenas caixa e bumbo – sem surdo nem pratos. Eu vou assumir a guitarra, sendo a primeira vez em público, e o Jair vai tocar o baixo. No repertório, as músicas do meu disco solo que melhor conversam com essa proposta são “À olho nu” e “Quase (ou o decaimento do Telúrio-130)“. Além delas, tocaremos faixas da Lupe, do Jair solo e do Ludovic. Vai ser divertido demais, uma das melhores experiências da minha vida!

TMDQA!: Não podemos deixar de mencionar o nome da turnê: “Sem Sair na Rolling Stone”. Ao mesmo tempo em que soa como um manifesto de orgulho do underground, carrega uma ironia sobre a invisibilidade da cena independente. Qual é o tamanho do fantasma do reconhecimento comercial para vocês três, veteranos da música alternativa, no cenário atual?

Renan Benini: Para nós, esse barco já zarpou, fazemos o que fazemos há muito tempo. Quando eu era adolescente e a Lupe estava no início, eu já assistia aos vídeos do Jair pulando no meio da galera. Sempre tivemos essa postura muito ligada à ética do rock independente, já passamos por muita coisa e nunca dependemos de ninguém para colocar nossos projetos de pé.

O título é uma reflexão sobre a expectativa alheia de que os artistas precisam de grandes validações para existir. Nós não precisamos.

Se a grande mídia abrir as portas, eu acho legal? Acho. Mas não é isso que define nosso trabalho. Se dependêssemos disso, nada além do sertanejo universitário estaria funcionando no país. No começo de nossas carreiras, esse embate com o mercado parecia um berro muito maior, mas hoje não nos incomodamos mais com essas métricas. Nós simplesmente vamos lá e fazemos.

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TMDQA!: Para finalizarmos, gostaria de fazer três perguntas rápidas. Primeira: qual é a faixa mais injustiçada de São Francisco, 31? Aquela que você ama, mas sente que as pessoas ainda não pescaram a essência.

Renan Benini: A própria faixa-título, “São Francisco, 31”.

TMDQA!: Se São Francisco, 31 não fosse um álbum de música, ele seria um livro de memórias, um filme da Sessão da Tarde ou um álbum de fotos de família mofado no guarda-roupa?

Renan Benini: Com certeza um álbum de fotos de família, sem dúvidas.

TMDQA!: Você mencionou em outra oportunidade que deseja colocar a guitarra nas costas e tocar até em boteco de Rondônia. Qual é a sua maior ambição, no sentido mundano, com esse disco de estreia?

Renan Benini: Minha grande ambição é justamente rodar o Brasil inteiro e viver da minha música. Meu sonho é conseguir intercalar os anos: em um ano faço turnê com a Lupe de Lupe, no outro foco na minha carreira solo.

Não são ambições megalomaníacas, são simples. Quanto mais gente eu puder alcançar com o meu som, melhor.

TMDQA!: Renan, reitero que fiquei muito feliz com o nosso papo. Para fechar com a nossa tradição, você poderia listar cinco álbuns que mudaram a sua vida e explicar brevemente o porquê?

Renan Benini: Claro, vamos lá!

  1. Elis & Tom (Elis Regina e Tom Jobim): Cresci ouvindo esse disco. Para mim, o Tom Jobim é o maior músico brasileiro da história, e a interpretação da Elis dispensa apresentações. É um álbum perfeito.
  2. The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (David Bowie): É o meu disco favorito do Bowie. Considero uma obra ímpar em termos de rock e teatralidade. Ele estabeleceu conceitos ali que ditaram os rumos de muita coisa que veio depois.
  3. In the Court of the Crimson King (King Crimson): O melhor disco psicodélico de todos os tempos. Ele sintetizou tudo o que foi feito no final dos anos 1960 e moldou as gerações futuras. É como se pegassem o Pet Sounds dos Beach Boys e o Sgt. Pepper’s dos Beatles, fundissem os dois e adicionassem uma dose de loucura progressiva, folclore e RPG. Escutei demais esse álbum.
  4. Siamese Dream (Smashing Pumpkins): Minha banda favorita da vida é o Smashing Pumpkins, e este é o trabalho deles que mais me move. Acho o álbum mais coeso e preenchido, sem as excessivas ramificações do Mellon Collie, que é um disco duplo.
  5. In the Aeroplane Over the Sea (Neutral Milk Hotel): É o meu disco favorito da vida, ele funciona como um livro, como um filme. É exatamente o tipo de álbum que eu gostaria de ter feito. Em São Francisco, 31, eu tentei buscar essa mesma lógica de construir uma narrativa do início ao fim através das faixas.

TMDQA!: Escolhas maravilhosas, irmão, finalizamos em grande estilo. Muito obrigado pelo tempo e muito sucesso na estrada! Mais uma vez, parabéns pelo álbum!

Renan Benini: Eu que agradeço demais pelo espaço, velho. Valeu mesmo, um abraço a todos e tamo junto!

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