“Faz sem ela saber”: a fala que revoltou Pernambuco e o Brasil de ponta a ponta

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“Faz sem ela saber”: a fala que revoltou Pernambuco e o Brasil de ponta a ponta

Não foi só em Recife que a frase pegou mal. “Faz sem ela saber” saiu de um hospital em Garanhuns, no Agreste, e se espalhou pelo estado inteiro como um estopim. A governadora Raquel Lyra pode até tentar reduzir o episódio a uma “fala equivocada”, mas o que se viu nos últimos dias foi Pernambuco inteiro — do interior à capital — dizendo, em coro, que aquilo não foi deslize de discurso. Foi o retrato de como uma autoridade pública enxerga o corpo da mulher.

Em Recife, o Palácio do Campo das Princesas amanheceu cercado por cartazes. A Rede de Mulheres Negras de Pernambuco puxou o protesto, e não foi pouca gente que apareceu para dizer, na cara do Palácio, que esterilização não é decisão que se tome pelas costas de ninguém. Estavam lá advogadas, estava a deputada Dani Portela, autora da lei estadual que trata exatamente desse tipo de violência obstétrica. Não foi manifestação de ocasião: foi gente que conhece a lei e sabe nomear o que aquela fala significa.

E o repúdio não ficou restrito às ruas. A Secretaria Nacional de Mulheres do PSB, de Brasília, e a própria secretaria estadual do partido em Pernambuco saíram com nota conjunta chamando a fala pelo nome: violação do direito de decidir sobre o próprio corpo, prevista em lei federal desde 1996. Quando o núcleo de mulheres do PSB nacional sente necessidade de se pronunciar sobre uma frase dita em Pernambuco, é sinal de que o estrago passou da fronteira estadual.

João Campos, adversário de Raquel na disputa pelo governo, foi direto: chamou a fala de violência e crime previsto em lei. Pode-se dizer que é jogo de política, é natural que o adversário capitalize o momento — mas a verdade é que a reação de mulheres de dentro do próprio campo político pernambucano, para além da disputa eleitoral, é o que dá o tamanho real da revolta. Não é só oposição batendo. É a base de mulheres do estado, de partidos diferentes, dizendo a mesma coisa.

Raquel tenta se defender citando a Lei do Parto Humanizado, que ela mesma sancionou, e as maternidades erguidas em Caruaru. Mas nenhum histórico de gestão apaga uma frase gravada, dita com todas as letras, sugerindo que um procedimento de esterilização fosse feito “sem ela saber”. Pernambuco ouviu, entendeu e não perdoou. E quanto mais a governadora tenta explicar, mais a explicação soa a desculpa tardia para algo que já rodou o estado inteiro.

Por: TonyLucas/ focobr.com

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