O Senado dos Estados Unidos travou nesta terça-feira (15/9) a votação do Clarity Act, o projeto que criaria as primeiras regras federais claras para o mercado de criptomoedas, definindo a CFTC como reguladora de ativos como o bitcoin e deixando sob a SEC os criptoativos considerados valores mobiliários. O texto foi barrado por 49 votos a 50 — dez abaixo dos 60 necessários para avançar — com todos os 45 democratas contrários, somados a quatro republicanos, entre eles Susan Collins e Josh Hawley. Bitcoin e ether caíram entre 5% e 7% imediatamente após o resultado, as ações da Coinbase recuaram mais de 10% e os papéis da Strategy, que detém 845 mil bitcoins, tombaram 5,36%.
O obstáculo central não foi técnico, mas político: o enorme volume de dinheiro que o próprio presidente Donald Trump embolsou com criptomoedas enquanto ocupava a Casa Branca. Segundo declarações éticas, Trump faturou mais de US$ 2,2 bilhões com negócios ligados a criptoativos só no último ano — US$ 588 milhões vindos da World Liberty Financial, empresa cripto de sua família, US$ 636 milhões da sua própria memecoin “$TRUMP” e US$ 197 milhões em participações de stablecoins. Os filhos do presidente também lucraram significativamente com os mesmos negócios.
Para tentar destravar o texto, Trump teria concordado em meados de julho, “com surpreendentemente pouca resistência”, em aceitar novas regras de ética propostas pelos senadores Cynthia Lummis e Bernie Moreno: uma proibição a ele e à primeira-dama Melania Trump de lançar novas memecoins, e a exigência de colocar participações cripto “significativas” em um blind trust ou se desfazer delas acima de determinado valor — o que atingiria diretamente a fatia que ele mantém na World Liberty Financial. Mesmo assim, para os democratas, a oferta ficou aquém do necessário: eles exigiam desinvestimento obrigatório, não apenas restrição a memecoins futuras, e isso foi o suficiente para travar o acordo horas antes da votação.
“Não vamos aprovar um projeto que permita a Trump continuar embolsando bilhões” enquanto “famílias trabalhadoras… lutam com o aumento dos preços”, disse a senadora Elizabeth Warren, resumindo o argumento democrata. O episódio expõe uma contradição já conhecida do segundo mandato de Trump: o mesmo presidente que se apresenta como o maior entusiasta político das criptomoedas nos Estados Unidos é também o maior beneficiário pessoal de um mercado que sua própria administração deveria regular — e é essa mistura entre interesse público e ganho privado que, por ora, mantém o setor sem as regras que o próprio mercado dizia querer.



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