Não basta ter só o Pastor manipulador que toma dinheiro na cara dura e enriquece, cria impérios em nome de Jesus, enquanto as pobres ovelhas estão dependendo de programas do governo para ajudar na sobrevivência. Os exploradoraes da fé mostram a cara descaradamente. Quem diria que a divindade precisaria de cabos eleitorais e trios elétricos supervitaminados para garantir sua popularidade em pleno sábado recifense? A tradicional Marcha para Jesus desta 28ª edição esqueceu rapidinho o roteiro celestial para adotar uma cartilha muito mais terrena: a da politicagem descarada, transformando o nome do Messias em mero slogan de campanha para a direita pernambucana de 2026.
Entre bandeiras partidárias, sorrisos ensaiados de candidatos ávidos por um voto e discursos inflamados que misturavam unção com promessas de palanque, o evento virou um verdadeiro comício disfarçado de louvor. O que era para ser uma demonstração de fé genuína acabou promovida a um grande desfile de vaidades onde a única coisa que subia aos céus era a fumaça da conveniência eleitoral e a estética nítida do fascismo à brasileira.
Olhando para aquela tropa de choque da suposta moral, fica difícil não concluir que essa dita “igreja da direita” está muito mais perto do inferno do que o próprio capiroto. Afinal, sequestrar o altar para fazer marketing ideológico e manipular a crença alheia é uma ofensa espiritual de carteirinha, digna de uma temporada VIP nas profundezas mais quentes do abismo.
O verdadeiro motor dessa engajadíssima procissão não tem nada a ver com o reino dos céus, mas com o império implacável da exploração da fé alheia. Sob o disfarce de salvação, o que se perpetua é a pechincha da esperança dos mais humildes e desavisados, cujos bolsos e boa-fé são sugados para financiar projetos de poder de quem confunde religião com plano de negócios.
Para coroar o espetáculo de alucinação coletiva, não poderiam faltar os habituais cartazes histéricos brandindo o perigo do “comunismo”, como se a Guerra Fria ainda estivesse passando na televisão da sala. É uma pena que ninguém tenha tido a caragem de avisar a essa patota que o comunismo deixou de existir há muito tempo, provando que a massa cinzenta por ali foi soterrada por décadas de teorias da conspiração de WhatsApp.
No fim das contas, Jesus deve estar olhando lá de cima e se perguntando em que momento sua mensagem de amor ao próximo e acolhimento aos pobres virou esse circo de horrores eleitoral. Entre a busca desenfreada por lucros terrenos e a ignorância histórica estampada em cartolina, a marcha provou ser menos um ato de fé e muito mais um triste atestado de falência intelectual.
(Foto: Karol Rodrigues/DP Foto)
Por: Tony Lucas/focobr.com




