ABECMed atua na promoção de estudos e atendimentos relacionados ao uso medicinal da cannabis (Foto: Rafael Vieira/DP Foto)
A Associação Brasileira de Estudos Canábicos (ABECMed) lançou a campanha “Um Quarto para o Alisson”, iniciativa que une consultas solidárias com cannabis medicinal à arrecadação de recursos para ampliar a casa de um adolescente autista em Fernando de Noronha.
A ação faz parte do Projeto Noronha, desenvolvido pela entidade, que realizou entre os dias 17 e 23 de maio a segunda etapa de um mutirão gratuito de atendimentos voltados a crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e pacientes com ansiedade, insônia e dor crônica no arquipélago.
A ABECMed atua na promoção de estudos e atendimentos relacionados ao uso medicinal da cannabis, além de desenvolver projetos sociais e ações de conscientização sobre o tema. Em Noronha, a associação realiza consultas, acompanhamento médico e distribuição de óleo medicinal para pacientes atendidos pela iniciativa.
Segundo a entidade, cerca de 300 moradores se cadastraram para participar do projeto, mas nem todos conseguiram atendimento na primeira fase, realizada em fevereiro deste ano. Na ocasião, foram feitas 68 consultas presenciais e distribuídos 76 óleos de cannabis medicinal.
De acordo com o advogado da associação, Ladislau Porto, a grande procura levou à criação de um novo modelo de atendimento solidário.
“Quando a gente foi para Noronha, havia uma demanda de consultas que não poderiam ser sociais, porque a gente tinha um limite para essa campanha social. Então, seriam pessoas que poderiam até pagar uma consulta. A gente teve essa ideia de pegar os médicos, pedir a eles esse horário de agenda, e vender esse horário. E 100% do valor é revertido para projetos sociais”, afirma.
A campanha busca arrecadar recursos para concluir a construção de um quarto exclusivo para Alisson, adolescente autista com nível 3 de suporte que vive com a mãe, Néia, em um único cômodo em Fernando de Noronha.
“Hoje, o projeto vai expandir a casa de uma criança atípica. Ele enfrenta muitos problemas porque mora em um quarto de pousada, que é só um cômodo”, explica Ladislau.
Segundo a associação, o novo espaço deve proporcionar mais conforto e qualidade de vida ao jovem, considerando as necessidades específicas do transtorno.
Como funciona a campanha
A campanha ocorre por meio de consultas online solidárias voltadas ao acesso e acompanhamento do tratamento com cannabis medicinal. O atendimento é realizado por médicos voluntários parceiros da ABECMed.
Os interessados devem preencher um formulário de inscrição. Depois disso, a equipe do Projeto Noronha entra em contato para orientar e agendar a consulta virtual.
Cada consulta custa R$ 265, e o valor arrecadado é destinado integralmente à mãe de Alisson para a construção do quarto.
Além da campanha solidária, Ladislau ressalta que a associação mantém atendimentos gratuitos para parte da população do arquipélago.
“Também existe um projeto de doação em Fernando de Noronha em que a associação atende um determinado público, faz as doações e os atendimentos. Esse atendimento não surge como algo que possa ou deva ser cobrado. A associação está doando o que tem, tanto a produção quanto o médico doando o seu atendimento”, complementa o advogado.
Mutirão em Fernando de Noronha
A segunda etapa do mutirão contou com uma equipe formada por 20 profissionais, entre eles cinco médicos. Relatório produzido pela associação aponta que 57,4% dos pacientes atendidos na primeira fase apresentavam quadros relacionados à ansiedade. Distúrbios do sono apareceram em 41,2% dos casos, enquanto depressão foi identificada em 20,6%.
O levantamento também registrou atendimentos ligados a dor crônica, TEA, TDAH e fibromialgia.
ABECMed
A ABECMed surgiu a partir da experiência pessoal do presidente da associação, Alexandre Machado, que passou a utilizar cannabis medicinal após ser diagnosticado com artrose e sofrer com dores crônicas. Segundo ele, a melhora no quadro motivou a criação do projeto voltado a outras pessoas que buscavam tratamento.
“Toda essa mudança aconteceu por causa do que vivi. Eu quis mostrar para as outras pessoas que isso é real, que realmente funciona. Comecei a me envolver, vi os casos das mães que têm filhos neurodivergentes pedindo ajuda e uma idosa que veio me procurar… Então eu tive que legalizar tudo”, afirma.
Hoje, a associação atua no cultivo, distribuição e promoção de atendimentos ligados ao uso medicinal da cannabis, incluindo ações sociais em Fernando de Noronha.

