IníciopolíticaOposição articula ida de Mauro Vieira ao Congresso antes do recesso

Oposição articula ida de Mauro Vieira ao Congresso antes do recesso

Parlamentares da oposição no Congresso Nacional se articulam para que o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, seja ouvido pelas comissões de Relações Exteriores do Senado e da Câmara antes do recesso legislativo, que começa em 18 de julho. Apesar do movimento, os colegiados ainda não definiram uma data para receber o chanceler.

Na última terça-feira (8), Vieira foi convidado pelo colegiado do Senado a prestar esclarecimentos sobre o documento enviado à Câmara dos Deputados em que menciona a possibilidade de ações militares dos Estados Unidos contra o Brasil após a classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas pelo governo de Donald Trump. O convite, no entanto, não obriga o ministro a comparecer.

No dia seguinte, Vieira foi convocado pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara para se manifestar sobre o mesmo episódio. Diferentemente do convite, a convocação torna obrigatória a presença do ministro.

A oposição tenta viabilizar a ida de Vieira já na próxima semana. Integrantes do grupo, no entanto, reconhecem que o encontro pode acabar ficando para agosto, na volta do recesso, caso não haja um encaixe entre a agenda do ministro e a das comissões.

A definição da data cabe aos presidentes de cada comissão. No Senado, a Comissão de Relações Exteriores é presidida por Nelsinho Trad (PSD-MS). Já na Câmara, o colegiado é comandado pelo deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP). A oposição deve buscar os parlamentares para viabilizar a realização da audiência nos próximos dias.

Conforme relataram fontes do governo à CNN, Mauro Vieira deve comparecer às comissões nas datas definidas tanto pelos deputados quanto pelos senadores. O chanceler já esteve na Comissão de Relações Exteriores ao menos cinco vezes desde que tomou posse no comando do Itamaraty, em janeiro de 2023.

Nas audiências para explicar o risco de uma ação militar dos EUA no Brasil, os opositores pretendem questionar o ministro de maneira incisiva sobre a postura que o governo brasileiro tem adotado frente à posição estadunidense de classificar facções criminosas como terroristas.

Segundo parlamentares do grupo, é injustificável expor o temor de uma invasão dos EUA ao Brasil neste momento. De acordo com a oposição, isso prejudica as relações do governo brasileiro com a Casa Branca.

O deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS) foi um dos autores do requerimento que pedia a convocação do ministro na Câmara. Para ele, o ofício do Itamaraty é “vergonhoso” e não condiz com a posição de um chanceler.

“O ministro sugere que o governo é contra chamar o PCC e CV de terroristas pelo governo dos EUA porque isso poderia ensejar uma invasão militar. Isso é absurdo. Eu não consigo imaginar um ministro de Estado das Relações Exteriores lendo esse texto. Ridiculariza a posição do ministro. Ainda parece dar a entender que Lula teme uma invasão para resolver problemas que o governo não resolve”, afirmou.

Diplomatas brasileiros relataram à CNN que a possibilidade de uma intervenção dos EUA no Brasil se baseia nas operações militares realizadas nos últimos meses pelos Estados Unidos principalmente no Caribe, com o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e ataques a barcos na região.

Segundo fontes do governo, a leitura da diplomacia brasileira é de que o cenário atual é realista e deve ser encarado com a devida responsabilidade. Além da observação das intervenções militares na América, essas mesmas fontes citam ações militares dos EUA contra outros dois países: México e Irã.

Entenda

Os pedidos para que Mauro Vieira compareça ao Congresso ocorreram após o ministro enviar um ofício ao deputado federal Evair de Melo (PP-ES) em que alerta para riscos após a classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas, por parte dos Estados Unidos. O chefe da diplomacia brasileira mencionou a possibilidade de ações militares dos EUA contra o Brasil.

No documento, o Itamaraty ainda afirma que a classificação “não trará benefícios concretos para a cooperação internacional entre EUA e Brasil no enfrentamento do crime organizado”. Segundo a resposta do governo, a classificação das facções como “organizações criminosas transnacionais” por Washington já permitiria a cooperação na troca de informações e outras ações de combate ao crime.

O Departamento de Estado dos EUA classificou como “absurda” a hipótese levantada pelo Itamaraty de ação militar americana no Brasil. A nota também alega que as facções criminosas brasileiras agora operam em território americano e que, por isso, os Estados Unidos devem defender seu povo.

“Alegações vagas de intervenção servem, muitas vezes, de pretexto para auxiliar e acobertar alguns dos grupos mais violentos do mundo”, disse o órgão estadunidense.

Classificação do PCC e CV como terroristas

A designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) pelos Estados Unidos entrou em vigor em 5 de junho.

Essa foi a segunda etapa do processo, que se iniciou em 28 de maio, quando o Departamento de Estado americano fez o anúncio e enquadrou as facções como “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGT).

O comunicado, assinado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, afirma que o CV e o PCC estão entre as organizações criminosas mais violentas do Brasil e que sua atuação se estende para além das fronteiras brasileiras, alcançando o território americano.

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