O governo dos Estados Unidos sumiram com mais de US$ 13 bilhões, aproximadamente R$ 65 bilhões, arrecadados com as vendas do petróleo da Venezuela desde que assumiu a gestão das exportações do país, em janeiro de 2026. Apesar do volume bilionário, Washington não apresentou uma prestação pública de contas que permita saber quanto desse dinheiro efetivamente retornou à economia venezuelana.
O cálculo foi publicado pelo jornal britânico Financial Times, que analisou dados de embarques reunidos pela plataforma Kpler e estimativas de preços da agência especializada Argus Media.
Segundo o levantamento, as cargas venezuelanas cujos preços estavam diretamente disponíveis somaram cerca de US$ 11,5 bilhões. Ao estimar o valor dos demais barris exportados desde janeiro, o jornal chegou a uma receita superior a US$ 13 bilhões.
O governo venezuelano criou uma página para registrar os recursos recebidos. Até a publicação da reportagem, porém, o sistema exibia somente uma operação: uma transferência de US$ 300 milhões realizada em março.
Isso não significa necessariamente que nenhuma outra quantia tenha sido utilizada. Uma autoridade do Departamento de Estado afirmou, em abril, que US$ 3 bilhões já haviam sido enviados ao país. Washington, entretanto, não publicou extratos, destinatários ou uma auditoria capaz de demonstrar como o valor foi distribuído.
Estados Unidos assumiram o controle do petróleo da Venezuela
A gestão das receitas foi estabelecida depois da operação militar de 3 de janeiro que capturou Nicolás Maduro e o retirou do país. Delcy Rodríguez, então vice-presidente, assumiu o comando, enquanto o governo de Donald Trump suspendeu parcialmente sanções e centralizou em contas norte-americanas os pagamentos pelas exportações.

A medida confirmou uma estratégia que já havia sido anunciada. A Fórum mostrou que os Estados Unidos pretendiam controlar “indefinidamente” as vendas do petróleo da Venezuela, principal fonte de divisas do país sul-americano.
Trump também declarou que os EUA deveriam “administrar” a Venezuela e explorar suas reservas por muitos anos.
Em 9 de janeiro, o presidente norte-americano assinou a Ordem Executiva 14373, que determinou a manutenção das receitas em contas designadas do Departamento do Tesouro.
A própria ordem executiva da Casa Branca reconhece que os valores são propriedade do governo da Venezuela, e não dos Estados Unidos. Apesar disso, qualquer utilização do dinheiro depende de autorização das autoridades norte-americanas.
Dinheiro venezuelano subordinado à política externa dos EUA
O documento determina que os desembolsos sejam realizados conforme decisões do secretário de Estado dos EUA. O governo Trump apresentou versões diferentes sobre a operação: a ordem executiva classifica os Estados Unidos como responsáveis pela custódia, mas o próprio presidente já afirmou que seu país estava ganhando dinheiro com o negócio.
As contradições provocaram cobranças no Congresso. A deputada republicana María Elvira Salazar defendeu a publicação de relatórios, enquanto o democrata Joaquín Castro acusou o governo Trump de controlar bilhões sem transparência.
As dúvidas são ampliadas pelo desempenho da economia. A flexibilização das sanções e o fim dos descontos no mercado paralelo deveriam ter provocado uma entrada expressiva de dólares. No entanto, o crescimento de 2,5% registrado no primeiro trimestre foi o menor em quase cinco anos, segundo economistas ouvidos pelo Financial Times.
R$ 65 bilhões sob custódia durante a reconstrução
A falta de transparência ganhou uma dimensão ainda mais grave após os terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram Caracas e o estado de La Guaira em 24 de junho. Um mês depois, o balanço oficial aponta aproximadamente 5,4 mil mortos e 16,7 mil feridos.
O Banco Mundial estimou em US$ 19,6 bilhões os danos físicos diretos provocados pelos terremotos. O volume do petróleo da Venezuela controlado por Washington equivale a cerca de dois terços dos danos calculados na infraestrutura.
A Fórum mostrou que 190 edifícios desabaram e outros 856 foram atingidos em La Guaira, região mais afetada pelo desastre.
Controle econômico avança junto com presença militar
O domínio sobre as receitas ocorre ao mesmo tempo em que os Estados Unidos mantêm mais de 900 militares em território venezuelano para a operação de resposta aos terremotos. Tropas, aeronaves e embarcações passaram a operar no principal aeroporto do país e no porto de La Guaira.
Uma delegação formada por militares e especialistas israelenses também atuou durante semanas na Venezuela, mas a missão foi encerrada depois de ter sido prorrogada a pedido do governo de Delcy Rodríguez.
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A presença estrangeira não anula a importância da ajuda prestada às vítimas. Entretanto, a combinação entre tropas instaladas em pontos estratégicos e o controle direto sobre a principal fonte de receita do país revela uma relação profundamente desigual.
A ordem assinada por Trump afirma que o dinheiro continua pertencendo a Caracas. Enquanto Washington não publicar uma prestação integral das contas, porém, permanecerá sem resposta a pergunta central levantada pelo Financial Times: onde estão os bilhões produzidos pelo petróleo da Venezuela?

