Ao ser confrontada sobre a urgência do fim da escala 6×1, a governadora Raquel Lyra deixou transparecer, mais uma vez, a distância que separa o Palácio do Campo das Princesas da realidade vivida pelo povo pernambucano. Ao responder em alto e bom tom que “não falava disso”, a gestora estadual não apenas se esquivou de um debate urgente, mas escancarou a sua postura diante das demandas mais fundamentais da classe trabalhadora. O desdém verbalizado expõe uma insensibilidade profunda com quem carrega o Estado nas costas todos os dias.
A atitude da chefe do Executivo estadual é um absurdo político e institucional. Em um cargo de tamanha representatividade, esquivar-se de um tema que afeta diretamente a saúde física, mental e a dignidade de milhares de homens e mulheres em Pernambuco não é neutralidade: é omissão calculada. Dizer que “não fala disso” soa como um desrespeito direto àqueles que enfrentam rotinas exaustivas de seis dias de trabalho sufocante para ter apenas um único dia de descanso, muitas vezes devorado pelo transporte público precário e pelos afazeres domésticos.
Manter ou omitir-se diante da escala 6×1 é tolerar a perpetuação de um modelo perverso e arcaico. Trata-se de uma jornada que adoece a população, liquida o convívio familiar, destrói o tempo para os estudos e reduz o ser humano a uma mera engrenagem de produção. Ser contra a revisão dessa jornada — ou fingir que o debate não merece atenção — representa um posicionamento retrógrado e inaceitável em tempos que exigem qualidade de vida, justiça social e relações de trabalho verdadeiramente humanas.
Pernambuco, com seus altos índices de vulnerabilidade e sua força de trabalho historicamente explorada, necessita de lideranças que tenham a coragem de assumir o lado de quem produz a riqueza do Estado. Quando a governadora decide dar as costas a essa pauta, envia um sinal claro de alinhamento com os setores que lucram com o esgotamento dos seus funcionários. A esquiva governamental valida a precarização e deixa órfã uma população que clama por representatividade real na esfera pública.
É lamentável notar como o tom dos discursos muda drasticamente entre o período eleitoral e o dia a dia do mandato. Na hora de pedir o voto nos bairros populares e no interior, o discurso é voltado à proteção das famílias; contudo, diante de uma oportunidade concreta de apoiar uma pauta de emancipação do trabalhador, a resposta é a recusa seca e desinteressada. A política exercida de costas para a classe trabalhadora perde a sua função social e revela uma assustadora falta de empatia.
A recusa de Raquel Lyra em enfrentar a pauta da escala 6×1 ficará registrada como mais um capítulo de distanciamento social da atual gestão. O trabalhador pernambucano não precisa de governantes que se esquivem das suas dores, mas de quem tenha a altivez de defender a sua dignidade. O recado dado pela governadora foi alto e claro — e cabe à população lembrar, no momento oportuno, de que lado o Palácio escolheu ficar.
Tony Lucas / focobr.com




