
Transparência e dados: a narrativa de Flávio desmorona
A tese de que o governo federal “não negociou” é facilmente desmentida pelo cruzamento de dados públicos e documentos oficiais. Em nota técnica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Estado brasileiro documenta ao menos cinco reuniões de alto nível com o USTR desde maio. A sobretaxa norte-americana ignorou os fundamentos comerciais e baseou-se em retaliações a políticas internas soberanas do Brasil, como o Pix e regulações ambientais.
A tentativa de inverter a realidade, no entanto, já encontra barreira na percepção popular. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada na mesma quinta-feira, funciona como um termômetro do fracasso retórico da extrema direita: 51% dos eleitores consideram que Flávio apoiou o tarifaço deliberadamente para prejudicar a gestão petista. Para 63% dos brasileiros, a medida gringa ameaça diretamente o emprego e a renda de suas famílias. O levantamento escancara que o eleitor já codificou o alinhamento de Flávio aos EUA como um ataque direto à mesa do trabalhador brasileiro, gerando desgaste inclusive na base bolsonarista.
Valente nas redes, fugitivo na Polícia Federal
Enquanto sustenta o tom bélico na internet acusando o chefe do Executivo de “corrupção” e “incompetência”, o senador adota a postura de evasão frente à Justiça brasileira. A recusa em escolher uma data para prestar esclarecimentos à Polícia Federal revela o modus operandi do bolsonarismo diante do escrutínio legal: o adiamento sistemático.
O inquérito, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, apura declarações onde Flávio associou falsamente Lula a descontos indevidos no INSS. O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, já classificou o interrogatório como de “especial relevância”.
O contraste é incontornável e define o perfil do parlamentar. Sob as luzes anelares e o conforto de um estúdio, Flávio Bolsonaro empunha a bandeira nacional para justificar uma sanção estrangeira contra o Brasil. Diante da intimação da Polícia Federal para responder criminalmente por suas mentiras, prefere pedir mais prazo. O “avião sem piloto”, metáfora usada pelo senador para atacar o governo, parece descrever com mais precisão a atual estratégia de sua própria defesa.
