InícioCultura“Memórias Póstumas”: Jão entrega humanidade em novo disco

“Memórias Póstumas”: Jão entrega humanidade em novo disco

Antes de tudo, uma coisa fica evidente: Memórias Póstumas não é o álbum que muita gente esperava de Jão. Depois do gigantismo de SUPER (2023), que transformou sua música em combustível para arenas e refrões catárticos, seria natural vê-lo repetir a fórmula.

Em vez disso, o cantor faz exatamente o contrário. Abaixa o volume, desacelera o ritmo e entrega seu trabalho mais íntimo, literário e emocional até aqui.

O álbum se sustenta como um relato de quem transforma a dor em narrativa, encarando o luto sem tentar suavizá-lo. Cada faixa acrescenta uma nova camada desse processo, revelando inseguranças, saudades e conflitos que raramente aparecem com tanta transparência em seus trabalhos anteriores. O resultado é uma obra que tem força justamente na coragem de expor feridas ainda abertas e fazer delas o centro da experiência.

O TMDQA! ouviu o projeto, e agora, apresenta um pouco sobre suas impressões. Vamo lá?

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O pop encontra o silêncio

Desde “Catedral“, faixa que abre o álbum refletindo sobre a morte e a ausência do pai, Jão estabelece o tom da obra. Não há qualquer tentativa de transformar o luto em um grande clímax dramático, muito pelo contrário: Memórias Póstumas entende que algumas dores existem justamente porque não encontram explicação. Elas apenas permanecem.

Essa sensação percorre as 14 faixas. Se em SUPER as guitarras dominavam os arranjos e os refrões pareciam feitos para serem cantados em coro por milhares de pessoas, aqui os violões assumem o protagonismo. As flautas aparecem como pequenos respiros, as cordas abraçam a melancolia das composições e a produção – assinada por Jão ao lado de Zebu na maior parte do disco – sabe exatamente quando deixar o silêncio falar mais alto.

É um álbum que pede atenção aos detalhes.

Logo em “Aurora“, a abertura à capela dá lugar a um violão delicado, enquanto “Literatura“, “Por Você” e “O Arquiteto” mostram um compositor menos preocupado em criar frases de efeito e mais interessado em registrar pensamentos incompletos, dúvidas e imagens que parecem retiradas diretamente de um caderno de anotações.

A impressão é que estamos ouvindo alguém organizando o próprio caos. É muito belo ver a arte ser humana, de forma como deveria.

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Um artista que finalmente confia na própria escrita

E talvez a maior evolução de Jão esteja justamente na composição.

Quem acompanha sua discografia sabe que ele sempre escreveu sobre si, mas, em Memórias Póstumas, existe uma maturidade diferente. O artista abandona parte da necessidade de entregar respostas e passa a confiar mais na ambiguidade das palavras. O título inspirado em Machado de Assis não serve apenas como referência literária: funciona como uma chave de leitura para um álbum que transforma memória, tempo, sentimentalismo, finitude em personagens tão importantes quanto seus relacionamentos.

A escrita ganha novas camadas justamente porque aceita não ser completamente compreendida. Há versos que parecem simples na primeira audição, mas crescem conforme o disco avança. Outros preferem permanecer como perguntas abertas – e talvez seja essa a maior qualidade do projeto. Jão entende que nem toda música precisa explicar seus sentimentos, algumas apenas precisam existir.

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Entre a MPB e o pop, sem perder a identidade

Mesmo olhando para referências como os históricos Acústicos MTV, a MPB dos anos 1990 e nomes como Marisa Monte, o álbum nunca soa nostálgico ou preso ao passado.

Jão continua fazendo pop, mas agora é um pop mais paciente, menos preocupado com tendências e mais interessado em permanência. Há momentos de leveza em “Jabuticabeira“, explosões pontuais em “Curioso” e “Passeios Noturnos“, além da grandiosidade de “O Amor“. Nenhuma faixa tenta roubar a cena sozinha, tudo parece servir a uma narrativa maior.

Diferente de seus trabalhos anteriores, Memórias Póstumas não gira em torno de possíveis hits. Ele funciona melhor quando ouvido do começo ao fim, como um único percurso emocional.

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Depois do fogo, a memória: Jão e a delicadeza da vida

É verdade que o álbum pode causar estranhamento para quem esperava um sucesso natural pra um pop de arena. Faltam os momentos dançantes e a urgência que marcaram discos como PIRATA, e em alguns momentos, a atmosfera contemplativa até torna a experiência menos imediata.

Mas essa parece ser uma escolha consciente – Jão não queria repetir um sucesso, queria descobrir quem seria depois dele.

E a resposta está aqui.

Memórias Póstumas é um disco sobre perdas, mas também sobre permanência. Sobre encontrar beleza na rotina, aceitar perguntas sem resposta e entender que amadurecer artisticamente nem sempre significa crescer em escala. Às vezes, significa apenas escrever com mais honestidade.

Se SUPER consolidou Jão como um dos maiores nomes do pop brasileiro contemporâneo, Memórias Póstumas o apresenta como um artista disposto a desafiar suas próprias fórmulas. É um álbum delicado, sofisticado e profundamente humano, que não busca impressionar na primeira audição – prefere permanecer na memória, no coração e nas reflexões do cotidiano.

Talvez seja justamente por isso que seja tão especial.

★★★★ (5/5)

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