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Imigrantes se orgulham de campanha de Cabo Verde na Copa: ‘Faltava o Brasil nos descobrir’

Imigrantes e descendentes celebram o primeiro gol da história da seleção em Copas do Mundo em Santo André, no ABC paulista. Crédito: Mônica Saraiva/Gondwana FC

Imigrantes cabo-verdianos contam que quase sempre respondiam a uma pergunta incômoda em encontros casuais: “Onde fica seu país?”. A Copa do Mundo está mudando o rumo essa conversa. A estreante em Mundiais trouxe orgulho, reconhecimento e a sensação de que não será mais preciso explicar a existência da própria nação.

Depois de empatar com seleções tradicionalíssimas, como Espanha e Uruguai, e conquistar uma inesperada classificação à segunda fase do Mundial, Cabo Verde deixa nos imigrantes a impressão de que os brasileiros finalmente estão se interessando em conhecer mais sobre o país irmão.

Nesta sexta-feira, 3, a saga de torcida compartilhada continua diante da Argentina, atual campeã, pela segunda fase.

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Time africano estreia em Copas no jogo contra a favorita Espanha. Crédito: Leonardo Catto (apresentação) e Felipe Pahor (edição)

“A minha rotina, assim como a de todos os cabo-verdianos emigrados, é responder onde exatamente fica Cabo Verde. Ninguém sabia”, resume José Augusto do Rosário, de 66 anos, morador de Santos há mais de seis décadas.

Imigrantes e descendentes de Cabo Verde torcem durante a Copa do Mundo em Santo André (SP) Foto: Rita Soares

Para Emmanuel Rocha, cônsul honorário de Cabo Verde em São Paulo, a Copa acelerou um processo que já existia. “Costumamos dizer que Cabo Verde descobriu o Brasil há muito tempo, mas faltava o Brasil descobrir Cabo Verde.”

Segundo ele, a identificação aumentou conforme a campanha da seleção avançava. “O povo brasileiro ‘apadrinhou’ a nossa seleção, principalmente através das atuações do goleiro Vozinha, que acabou se tornando uma espécie de embaixador involuntário de Cabo Verde.”

O volante Kevin Pina celebra o primeiro gol de Cabo Verde na Copa Foto: Alex Slitz / AFP

Após a atuação no 0 a 0 contra a Espanha e o impulsionamento da CazéTV e da torcida brasileira, o goleiro Vozinha, herói da estreia, saltou de cerca de 50 mil para mais de 9 milhões de seguidores no Instagram em 24 horas no primeiro grande fenômeno digital do torneio.

A percepção de “descoberta” é compartilhada por quem divulga a história e a cultura cabo-verdianas no Brasil. “Cansei de ter que identificar Cabo Verde no mapa nas minhas palestras”, conta a pesquisadora e memorialista Lucialina Maria Soares dos Reis, a Lutxa, presidente do Grupo Cultural Caboverdiano de Santo André. “Até a Copa, o Brasil desconhecia Cabo Verde.”

Imigrantes e descendentes de Cabo Verde acompanham jogo da seleção em Santo André, no ABC Paulista Foto: Roberto Monteiro

Essa é a mesma visão de Rita Soares, presidente da Associação Caboverdeana do Brasil (ACVBRASIL). “A seleção dos Tubarões Azuis abriu portas: brasileiros agora perguntam sobre nossa música, culinária e raízes. Passamos de um ‘arquipélago distante’ para uma nação forte e cheia de orgulho”.

O estado de São Paulo acolhe grandes concentrações de imigrantes no ABC Pauista (Santo André) e no litoral (Santos). Na capital, os cabo-verdianos ocupam principalmente a zona leste, na região de Guaianazes.

Proximidade nas músicas e nas novelas

O fenômeno surpreendeu quem acompanha múltiplas nacionalidades. Padre Assis Tavares, que vive há 13 anos na Vila Prudente, zona leste de São Paulo, afirma que vem acompanhando jogos até mesmo durante uma viagem à Bahia. “O povo está se identificando com Cabo Verde. Em São Paulo mandavam mensagens: ‘Nossa, Cabo Verde está ali, está resistindo’.

Ele faz questão de sublinhar o pronome possessivo “nossa” numa apropriação dos brasileiros pela seleção que faz sua primeira participação em Copas.

A aproximação tem raízes antigas. Assim como muitos cabo-verdianos, Assis cresceu consumindo novelas, música e futebol brasileiros a partir de semelhanças entre os dois países na música, na culinária, nas tradições e na língua. “Meu pai escutava Tim Maia, Gilberto Gil, Caetano Veloso. A proximidade é muito maior do que com Portugal.”

A repercussão extrapolou o futebol, como conta a missionária Fanny Ramos da Cunha, de 50 anos. “Pessoas que sabiam da minha nacionalidade, mas só conheciam pelos meus relatos, agora tem mais noção, de que país e que povo é esse”

Já o músico Hélio Ramalho, 44 anos, morador do Butantã, zona oeste, resume a sensação de pertencimento. “Os brasileiros abraçaram Cabo Verde como irmão que sempre fomos.”

Expectativa de avanço no turismo

Entre os cabo-verdianos que vivem no Brasil, a expectativa é que a curiosidade despertada pela campanha da seleção não desapareça com o apito final da Copa.

José Augusto espera que o interesse se transforme em viagens e em uma redescoberta das conexões históricas entre os dois países. “Espero que meus irmãos brasileiros visitem Cabo Verde para fazer um resgate de raízes, pois lá está muito da origem cultural do povo brasileiro.”

Emmanuel Rocha afirma que esse movimento já começou. Segundo ele, cresceram as consultas sobre o País e o interesse de agências de turismo. A inauguração do voo direto entre Recife e a cidade da Praia, lembra o cônsul, aproxima ainda mais os dois lados do Atlântico.

A pesquisadora Lutxa espera que, quando a Copa terminar, fique na memória muito mais do que a campanha surpreendente. “Que os brasileiros continuem lembrando do futebol alegre, limpo e emocionante de Cabo Verde, do goleiro Vozinha e, principalmente, do nosso povo.”

‘Futebol rompe barreiras’, diz documentarista

Quem estuda o futebol como fenômeno cultural também sublinha a experiência de Cabo Verde. A jornalista e documentarista Monica Saraiva foi ao jogo de Cabo Verde diante do Uruguai para observar de perto uma cultura que, segundo ela, dialoga profundamente com a brasileira.

Com passagens pelo Memorial da América Latina, pelo Museu do Futebol e pela Copa dos Refugiados e Imigrantes, ela afirma que o esporte pode aproximar os povos.

“Essas experiências reforçaram em mim a convicção de que a diversidade é um dos maiores patrimônios da sociedade e de que o futebol tem um poder único de aproximar pessoas, romper fronteiras e criar conexões”.

A experiência está alinhada ao trabalho que desenvolve à frente da Gondwana FC, iniciativa criada em 2020 para promover educação e intercâmbio cultural por meio do futebol e do audiovisual.

A partir do documentário educativo Gondwana Futebol & Cultura e da metodologia Gondwana ABC – Audiovisual, Bola e Câmera, o projeto leva a escolas, museus, unidades do Sesc e projetos sociais atividades que exploram as relações históricas e culturais entre a África e o Brasil, utilizando o futebol como ferramenta de aprendizagem epertencimento.

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