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A apuração sobre o direcionamento de recursos públicos para a área da saúde em Pernambuco atingiu um novo patamar de complexidade e tensão institucional com o avanço das investigações envolvendo a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, localizada no município de Garanhuns, no Agreste Meridional. No centro da investigação conduzida por órgãos de controle, reportagens investigativas e, mais recentemente, pela Polícia Federal, está o expressivo montante de repasses estaduais e federais direcionados à unidade hospitalar.
O Sócio
A composição societária da instituição, tem como um de seus sócios o empresário Jorge Noronha Branco Neto, marido da atual vice-governadora de Pernambuco, Priscila Krause Branco. Ao longo dos últimos três anos e meio, sob a gestão da governadora Raquel Teixeira Lyra, o hospital provocou a realocacão de mais de R$ 108,8 milhões, parte em recursos do SUS, repassados ao Estado. Um volume financeiro que destoa de forma contundente do histórico de arrecadação da unidade em gestões anteriores e levanta questionamentos sobre um possível conflito de interesses na administração dos fundos de saúde.
Pente Fino
O levantamento minucioso de dados extraídos do Portal da Transparência do Estado revela uma escalada constante nos valores transferidos à maternidade desde o início do atual mandato. No primeiro ano da gestão, em 2023, a unidade recebeu aproximadamente 28,2 milhões de reais. No ano seguinte, em 2024, o valor manteve-se no mesmo patamar, contabilizando 27,9 milhões de reais. No entanto, foi em 2025 que os repasses sofreram um salto significativo, alcançando a marca de 37,2 milhões de reais. Apenas no primeiro semestre de 2026, as transferências já somam R$ 17 milhões.

Dinheiro Federal
De acordo com as investigações em curso, desse montante total superior a R$ 108 milhões, estima-se que mais de 78,4 milhões de reais tenham origem em repasses do governo federal — incluindo verbas do Sistema Único de Saúde (SUS) e recursos destinados à complementação do piso salarial da enfermagem — que foram internalizados pelo Fundo Estadual de Saúde antes de serem remetidos à conta do hospital em Garanhuns.
15 Dias de Priscila no comando
Um dos capítulos mais sensíveis dessa engrenagem financeira, e que se tornou o principal combustível para a oposição na Assembleia Legislativa de Pernambuco, ocorreu em março de 2025. Durante um período de quinze dias a governadora Raquel Teixeira Lyra se licenciou para um recesso e Priscila Krause Branco assumiu interinamente a chefia do Palácio do Campo das Princesas. Na interinidade. a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi beneficiada com 25 pagamentos que, somados, ultrapassaram a cifra de R$ 3 milhões.
Liberação de Recursos
A liberação desses recursos coincidiu, de maneira controversa, com alterações profundas na estrutura administrativa da Secretaria Estadual de Saúde. Naquele exato período de interinidade, gestores de áreas estratégicas, como orçamento, projetos e monitoramento jurídico de licitações, foram exonerados, e a composição da comissão de licitação foi alterada. Parlamentares de oposição apontaram na tribuna que, logo após essas mudanças no quadro técnico, os pagamentos à unidade ligada ao marido da vice-governadora ganharam celeridade atípica.
PF Rastreando
Apesar das justificativas apresentadas pelo Executivo estadual, a gravidade do cenário levou as apurações. O caso agora encontra-se sob a lupa das autoridades federais, inaugurando uma fase muito mais rigorosa de averiguação. Recentemente, a Polícia Federal encaminhou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) um pedido formal de autorização para investigar a vice-governadora Priscila Krause, uma prerrogativa constitucional necessária devido ao foro privilegiado inerente ao cargo que ocupa.
Caminho Livre
O foco principal da corporação é rastrear o caminho dos recursos federais que aportaram nos cofres da maternidade e esclarecer, de forma definitiva, se houve tráfico de influência, prevaricação ou qualquer outra interferência política que tenha garantido privilégios operacionais ou financeiros à empresa de Jorge Branco Neto. Para a atual administração, que construiu sua plataforma eleitoral ancorada em pilares de transparência e renovação das práticas públicas, a materialização de um inquérito em cortes superiores representa não apenas um desafio jurídico complexo, mas perda de credibilidade e fortes indícios de falta de transparência.
Fonte: Jornal O Poder
