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França joga na Copa como Ancelotti sonhou, mas nem em delírio consegue repetir

Samba nasceu na Bahia. Sabemos. Samba, o goleiro da França, no Congo (como Mateta); Malo Gusto, lateral da França, tem pai de origem portuguesa, e a mãe, da Martinica (como a de Zaire-Emery); Upamecano é de ascendência de Guiné-Bissau; Koundé tem passaporte do Benin; Koné, da Costa do Marfim; Dembélé: pai da Mauritânia, mãe de Mali; os pais de Tchouaméni nasceram em Camarões; Thuram nasceu em Parma, onde o pai jogava na Itália, descende de avós de Guadalupe.

E tem mais! O pai de Mbappé é de origem camaronesa, e a mãe de berço argelino; Olise nasceu na Inglaterra de pai nigeriano, e mãe, argelina; o pai de Barcola é de Togo; Kanté e Konaté tem os pais do Mali. Saliba é filho de libanês com camaronesa.

Maignan nasceu na Guiana Francesa, pai de Guadalupe, mãe do Haiti. Os irmãos Theo e Lucas Hernandez têm ascendência espanhola por parte do pai.

O pai de Doué é de Costa do Marfim. Onde joga o irmão dele. Cherki é de família argelina (como a de Akliouche) e italiana, pelo pai; a mãe de Lacroix é de Madagascar, e o pai, de Guadalupe.

É isso: 23 dos 26 convocados do melhor futebol do mundo neste século vestem a camisa da França. Poderiam jogar por outras 21 seleções.

Este é o nosso mundo. E a França o conquistou por abrir portas e corações a quem não é da terra. Mas a defende melhor do que os donos da terra que atacam quem defende essas cores. Atacados ainda mais se forem de outras cores de pele.

A França virou essa potência a partir dos anos 1980. Tigana, Trésor, Janvion foram os primeiros pretos franceses de alto nível na seleção. Zidane, filho da Argélia, ajudou a mudar o patamar do futebol que a cada Copa tem mais filhos de diásporas ou de vizinhos.

O colega Irlan Simões trouxe levantamento impressionante feito pelo jornalista equatoriano Jaime Macias (@jaimefmacias) a respeito da multinacionalidade no futebol. Nesta Copa, só de atletas nascidos na França, estarão em campo pela Argélia 13 franceses; Costa do Marfim (8), Haiti (12), Marrocos (6, com mais 6 espanhóis), RD Congo (11, com mais 5 belgas), Senegal (10) e Tunísia (7). Também têm franceses em Cabo Verde (3), Catar (1), Espanha (1), Egito (1) e Gana (3).

Doze países escalam franceses. E a França convocou 23 atletas que podiam atuar por outros 21 países.

E se você é como Jean-Marie Le Pen que não via a “França” já no time de 1998 por ter gente de outros países, um dado para você que usualmente gosta de dinheiro mais do que de gente: a França é o país que mais ganha argent criando e exportando atletas, como relata o colega Euler Victor.

Se você não é boa pessoa para enxergar a riqueza de vida nestas trocas, ao menos veja a riqueza no seu cofre com tantos movimentos de migrantes.

E reveja o excelente segundo tempo francês contra a forte equipe do Senegal. No primeiro tempo, quase que os africanos repetem a história de 2002. Mas, depois, Mbappé comandou a festa de um time que joga no 4-2-4 que Ancelotti sonhou. Mas nem em delírio consegue repetir.

Jogadores da seleção francesa comemoram vitória sobre Senegal. Foto: Charly Triballeau/AFP

Grande atuação e vitória por 3 a 1.Enorme Mbappé que se igualou aos 13 gols em Copas do também francês Fontaine – mas apenas em seis jogos em 1958. E depois o superou em falha de Mendy, que havia feito grandes defesas para de novo falhar feio como um goleiro que tem mais sorte do que capacidade.

Just Fontaine que jogou pela França na Suécia. Mas era marroquino – então colônia. Quando a França já podia se aproveitar das tantas gentes espalhadas pelo mundo.

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