O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem oscilado cada vez mais abruptamente entre as ameaças de retomar a ofensiva militar contra o Irã e anúncios otimistas de um acordo iminente. Esses movimentos pendulares não são apenas parte de sua estratégia de negociação, que poderia ser chamada de “diplomacia do canhão” ou “do abismo”.
As idas e vindas são principalmente reflexo de pressões, de um lado, de Israel e de influentes republicanos que exigem uma postura dura frente ao Irã; de outro, das consequências negativas do fechamento do Estreito de Ormuz sobre a economia e, consequentemente, as eleições de novembro, que renovarão toda a Câmara e um terço do Senado.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também enfrenta eleições em outubro, e seu caso é o oposto: o conflito com o Irã o ajuda eleitoralmente. Netanyahu declarou nessa segunda-feira que “está em guerra com o Hezbollah”. Em seguida, Israel executou amplos bombardeios no Líbano. Ele sabe que as negociações entre EUA e Irã envolvem o fim desses ataques israelenses.
Trump tem tido conversas ásperas com seu aliado. Mas a postura de Netanyahu ressoa na base evangélica e ultraconservadora do Partido Republicano, que apoia Israel incondicionalmente.
Os influentes senadores Lindsay Graham, Ted Cruz, Tom Cotton e Roger Wicker, todos republicanos, criticaram duramente a possibilidade de acordo com o Irã que lhe permita manter seu programa nuclear.
As negociações atuais no Catar dividem o processo em fases: primeiro a abertura do Estreito de Ormuz, depois a discussão sobre o programa nuclear, o gradual descongelamento de depósitos bancários iranianos no exterior e suspensão das sanções contra o Irã.
Isso fez soar o alarme no governo israelense e entre os chamados “falcões sobre o Irã”. Na tentativa de mitigar essa reação, Trump anunciou que os acordos incluiriam “obrigatoriamente” a adesão dos países envolvidos nos Acordos de Abraão. Ou seja, Arábia Saudita, Catar, o Paquistão e até o Irã deveriam normalizar relações com Israel, como fizeram Emirados Árabes Unidos e Bahrein no primeiro mandato de Trump.
O Paquistão foi o primeiro a rejeitar publicamente a ideia. Os outros, incluindo Israel, a ignoraram.
Por outro lado, personagens centrais do governo, como o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, trabalham por um acordo com o Irã, ainda que sob condições “duras” para evitar que o país obtenha a bomba nuclear no futuro.
Essa visão leva em conta a urgência de o Estreito de Ormuz ser reaberto. As consequências econômicas do bloqueio podem se tornar mais visíveis nas próximas semanas e, com elas, a queda da aprovação do governo e das chances dos republicanos nas eleições de novembro.
Trump terminou a noite de sexta-feira indicando que poderia ordenar uma nova ofensiva contra o Irã no fim de semana. Já no sábado, passou a demonstrar forte otimismo sobre as negociações. Quando as autoridades iranianas negaram que um acordo era iminente, o presidente americano disse que as negociações precisavam de mais tempo, sem abandonar o otimismo.
Com as críticas de seus aliados em Israel e no Partido Republicano, lançou a ideia da ampliação dos Acordos de Abraão e voltou a ameaçar com ataques ainda mais violentos que os anteriores contra o Irã.
Enquanto isso, as negociações parecem progredir no Catar, apesar dos dilemas de Trump e do evidente propósito dos iranianos de não abrir mão de seu direito a um programa nuclear pacífico.
