A entrega da água e do esgoto de Pernambuco às empresas privadas emperrou. A transição da Compesa, que pelos contratos deveria estar concluída em seis meses, foi empurrada para 23 de novembro. A VITA Sertão assumiria em 29 de setembro e a AQUA Pernambuco nesta segunda-feira (26). Nenhuma das duas assumiu, e o governo Raquel Lyra não explicou o motivo do atraso.
Na transição, a reclamação é forte: a concessionária ainda não entendeu o tamanho e a complexidade do trabalho que vai assumir. Quem acompanha o processo relata dificuldade para dominar a operação da rede, o atendimento e a rotina de manutenção de um sistema com décadas de remendos. A Compesa se limitou a dizer que o novo prazo serve para concluir a integração dos sistemas comerciais, de atendimento e dos fluxos de trabalho, e garantiu que não haverá interrupções.
O leilão foi em dezembro de 2025, na B3. O bloco com 151 municípios, entre Região Metropolitana, Zona da Mata, Agreste e parte do Sertão, ficou com o consórcio Acciona–BRK, hoje AQUA Pernambuco, que foi o único concorrente e pagou R$ 3,5 bilhões de outorga. O bloco do Sertão, com 24 municípios, incluindo Petrolina, ficou com o fundo Pátria, hoje VITA Sertão. Os contratos valem por 35 anos.
No modelo, a Compesa continua pública, mas fica só com a captação e o tratamento da água. A distribuição, o esgoto e o atendimento, a parte que fala com o consumidor e manda a conta, passam para as privadas. As metas são 99% da população com água e 90% com esgoto até 2033, e as concessionárias têm 180 dias depois de assumir para apresentar um plano contra a intermitência. Ou seja, o rodízio continua.
O modelo também carrega falhas apontadas por técnicos do setor. Os dados de cobertura não batem com a realidade em 66 municípios: Serra Talhada aparece com 86% de esgoto e praticamente não tem rede. Cerca de R$ 5,2 bilhões em investimentos ficaram fora da conta, o estudo de viabilidade não foi divulgado antes do leilão e a fórmula da tarifa permite aumento sem teto. A associação dos funcionários da Compesa tem recurso pendente no Tribunal de Contas.
Na leitura do FocoBR, a privatização foi vendida como solução para a falta de água, e a primeira entrega foi um adiamento sem explicação e uma empresa que ainda está aprendendo o serviço. Água não é laboratório. O pernambucano que convive com rodízio não pode pagar a conta do despreparo. Antes de comemorar outorga bilionária, o governo deveria garantir que quem vai assumir sabe, de fato, abrir a torneira.
Por: TonyLucas/ focobr.com




