A vitória da tese defendida pela Previ na eleição do novo Conselho de Administração da Vale pode ser lida como mais um capítulo da reaproximação entre a mineradora e o governo federal. Mais do que um sinal inequívoco de ingerência política na companhia, o resultado reflete uma estratégia de interlocução institucional num momento em que a Vale mantém uma agenda extensa de negociações com Brasília, envolvendo temas como ferrovias, infraestrutura e projetos de mineração.
A CNN apurou que o interesse recente envolvendo assuntos que passam pelo conselho tratam-se de repactuações de contratos de concessão administrados pela Vale da EFVM (Vitória-Minas) e EFC (Carajás) e a ausência de interesse da mineradora na Bahia Mineração.
Se a mudança na composição do Conselho teve como justificativa oficial o alinhamento das “estruturas de liderança e governança”, o pano de fundo político ajuda a explicar a convergência entre a diretoria da Vale e a Previ em torno da proposta que acabou aprovada pelos acionistas.
A Vale elegeu, nesta quarta-feira (22), a nova composição de seu Conselho de Administração, com a aprovação da proposta da Previ de substituir Daniel Stieler por Manuel Lino de Oliveira, o Ollie, na presidência do colegiado.
A remodelagem, nos moldes defendidos pela Previ, contou com o apoio expresso da diretoria executiva da companhia.
O resultado consolida um processo de reaproximação entre a Vale e o governo iniciado após a escolha de Gustavo Pimenta para a presidência da mineradora. Depois de quase dois anos de desgaste entre o Palácio do Planalto e a gestão de Eduardo Bartolomeo, a sucessão abriu espaço para uma relação mais estável e pragmática entre a companhia e Brasília.
Essa aproximação ocorre em um momento em que a Vale depende do avanço de negociações importantes com o governo federal.
Nos últimos anos, não foram poucas as tentativas de atuação do governo, por meio da Previ, nas discussões envolvendo a cúpula da mineradora. Algumas tiveram caráter claramente político, como a defesa da indicação do ex-ministro Guido Mantega para o comando da empresa. Outras estavam ligadas a interesses considerados estratégicos pelo governo, nem sempre coincidentes com a avaliação dos demais acionistas.
Repactuação de contratos
Duas ferrovias operadas pela Vale são um impasse.
O governo federal e a companhia estão em estágio final de negociação para um acordo estimado em cerca de R$ 11 bilhões referente às ferrovias EFVM, entre o Espírito Santo e Minas Gerais, e EFC, no complexo de Carajás.
O acerto busca revisar cálculos relacionados às renovações contratuais e definir novas obrigações de investimento, incluindo a construção da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico).
A Vale contesta os cálculos apresentados pelo governo sobre a base de ativos das duas ferrovias, que resultariam em um valor superior ao acordado em 2020. Além da discussão sobre a precificação, a mineradora tentou utilizar a repactuação para se desobrigar da construção do trecho de 80 quilômetros da Fico entre Mara Rosa e Água Boa, alegando inviabilidade dos prazos ambientais. O pedido foi rejeitado pelo Ministério dos Transportes.
A repactuação segue sendo analisada no TCU.
Polo mineral
Um segundo ponto de resistência envolve o possível investimento da Vale na Bahia Mineração (Bamin), controladora do corredor Fiol-Porto Sul e pertencente ao grupo cazaque ERG.
A Bamin é dona do projeto Pedra de Ferro, na Bahia, e está associada a um corredor logístico considerado estratégico para o escoamento de minério no estado, que envolve mina, ferrovia e porto.
Executivos da Vale resistiam ao negócio por considerarem que o ativo apresentava pouca sinergia com as operações da companhia, por estar localizado em uma região onde a empresa não possui presença consolidada.
Em fato relevante divulgado em 24 de junho, a Vale confirmou que avaliou a oportunidade de investimento na Bahia Mineração, mas informou que não aprovou qualquer aporte, reiterando que suas decisões seguem critérios técnicos, econômicos e financeiros, em conformidade com suas políticas de governança.
Segundo relatos obtidos pela CNN Brasil, a iniciativa para que a Vale avaliasse o negócio contou com a atuação dos ministros Rui Costa, Alexandre Silveira e Renan Filho.
A concessão da Fiol 1 e o Porto Sul, em Ilhéus, pertencem à Bamin, cujo controlador enfrenta dificuldades para financiar integralmente o projeto.
Segundo fontes ouvidas pela CNN Brasil, o governo via na participação da Vale uma alternativa para viabilizar o empreendimento diante das restrições fiscais. Em paralelo, também foi discutida a possibilidade de a Petrobras assumir a administração do Porto Sul.
O próprio ministro dos Transportes, Renan Filho, já admitiu publicamente o interesse do governo e disse que a gestão daria apoio à operação.
Posteriormente, o governo decidiu incluir a Fiol 1 em uma nova concessão integral do corredor Leste-Oeste, depois que as negociações para a entrada da Vale no projeto não avançaram. As tratativas ocorreram paralelamente às discussões sobre a repactuação dos contratos ferroviários da companhia, que também permanecem sem conclusão.
Na mesma nota divulgada em junho, a Vale reiterou que as negociações sobre a otimização dos contratos de concessão da Estrada de Ferro Carajás e da Estrada de Ferro Vitória a Minas continuam com o Ministério dos Transportes, a ANTT e a Infra S.A., reafirmando o compromisso com as diretrizes estabelecidas no acordo de 30 de dezembro de 2024.
É nesse contexto que a saída de Daniel Stieler ganha relevância. O então presidente do Conselho resistia à aquisição da Bamin e acabou sendo substituído em um processo cuja justificativa formal foi de governança — argumento que a ISS afirmou não encontrar respaldo em elementos concretos.
A CNN Brasil apurou que Manuel Lino de Oliveira, o Ollie, assume a presidência do Conselho em um momento em que tanto a negociação ferroviária quanto as discussões envolvendo a Bamin permanecem sem solução. O novo presidente também chega ao cargo após ter se abstido, na votação anterior, de recomendar a permanência de seu antecessor.
Procurada, a Vale disse reiterar seu compromisso com a transparência e a conformidade legal, atuando em linha com as melhores práticas de governança no mercado global e diz que decisões são tomadas de forma técnica, independente e pautadas no melhor interesse da empresa.
A companhia reafirma, ainda, que avaliou a oportunidade e não aprovou qualquer investimento relacionado à empresa Bahia Mineração.
A empresa também afirma que as negociações relativas à otimização dos Contratos das ferrovias continuam junto ao Ministério dos Transportes, à ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e à Infra S.A., no âmbito de suas respectivas competências legais.

