
Eu tenho inveja deles.
Ao menos hoje… Argentina 2×1 Inglaterra foi mais emocionante do que o jogo de 40 anos antes, naquela tarde de Maradona
Sim. Contei aqui outro dia no Estadão: em 1986, primeiro tempo chocho, as duas seleções saíram vaiadas no Azteca. Para, depois, em 10 minutos, El Diablo e Dios fazerem o que fizeram contra os ingleses, quatro anos depois das Falklands.
Hoje, aqui em Atlanta, o final do jogo da melhor das Copas foi apoteótico. A partida que eu queria virar e ganhar na vida. Com o craque que eu amaria torcer a favor. E sei como não é fácil torcer contra. Como hoje e sempre.
Sim, para mim, a Argentina é o Darth Vader. Ídolo do “mal”. Admiro. Mas torço contra.
Não senti raiva ou frustração ou chateação na belíssima Mercedes Benz Arena. Senti inveja mesmo.
Inveja não é o sentimento dos mais nobres, para não dizer que é o pior deles. Mas eu estou com inveja dos nossos co-hermanos. Eu os respeito cada vez mais, admiro muitas vezes, sobretudo no campo de jogo.
Messi comemora gol da Argentina com Enzo Fernández. Foto: Werther Santana/Estadão
(Não generalizo a respeito da praga racista e xenófoba sempre deplorável. Jamais podendo ser generalizada).
Eu queria ter sido eles, principalmente na virada, na testada do Lautaro Martínez, na segunda assistência do Messi no jogo, a quarta na Copa do cara que, com 39 anos, participou de 12 gols da Argentina no Mundial.
É fato que ele não faz gols há dois jogos. Crise! É fato que ele ainda perdeu dois pênaltis em Copas. Mas penalidade máxima é não ter o privilégio de torcer por ele. Deve ser maravilhoso torcer pelo Messi. E deve ter sido fantástico ter torcido pela Argentina em mais uma virada impressionante, em mais uma vitória vibrante, talvez a maior deles e de todas as Copas, na melhor das Copas.
Sofreram mais do que deviam contra Cabo Verde. Sofreram mais e tiveram uma arbitragem mais feliz em outros jogos, como na virada fantástica contra o Egito. Sofreram o que não precisavam contra a Suíça. E, agora, talvez não precisassem sofrer tanto, por melhor que fosse o rival. E era melhor mesmo…
Mas, do jeito que foi o jogo, e do jeito que foi a virada, e do jeito que é o futebol, nem tem como não se encantar, ou não querer ter sido um pouco argentino.
Como eles são muito argentinos.
Ou pelo menos ter tido o privilégio de torcer por Lionel Messi e pelo xará Scaloni.
Por tudo que o treinador platino fala, por tudo que ele faz, por tudo que a Argentina pode fazer se for tetracampeã domingo. Argentina que chega à sua terceira final em quatro Copas. Messi que deve igualar Cafu como os únicos que jogaram três finais de Copas. Argentina que já iguala o Brasil em finais disputadas. Ganhamos cinco, perdemos duas. Eles já ganharam três, perderam três. Podem ser tetras, como a Alemanha e como a Itália, e podem muito mais, porque parece que no grito e na alma, na garra, eles conseguem fazer coisas além deles.
Como fizeram os atletas cantando o hino. Como não podiam ter cantando sobre o “God Save the King”, respondido com a reação inglesa de vaiar o hino argentino.
Isso não é legal e vai muito além do campo de jogo.
Assim como foi impressionante e triste não conseguir ouvir os hinos nos estádios pela algazarra, juro que parecia possível ouvir o elenco argentino o cantar.
Mas, lá dentro, mais uma vez, eles foram tudo aquilo que o time do Tuchel não quis ser. Ou ele não deixou mais ser. O alemão, o melhor pior treinador ou pior melhor do mundo, pisou na bola, como já havia pisado na língua ao cornetar no próprio grupo de atletas na grande vitória contra a Noruega.
Isso um comandante não deve fazer. Como não deve um time que estava melhor, vencia por 1×0, tirar um ponta esquerda (autor do gol), botar um zagueiro, atrair a Argentina pra cima e deixar um time que havia feito quatro gols de fora da área, marcar o quinto com Enzo Fernández, e não marcar de novo o Messi pra ele cruzar pra o baixinho Lautaro Martínez fazer o gol da virada e da história argentina.
Habla-se español na grande decisão da Copa entre Espanha, de Yamal, que ainda não é aquele, e de Messi, que vai ser sempre aquele.
