A desaceleração do IPCA para 0,16% em junho – cerca da metade da alta de 0,31% projetada em pesquisa da Reuters – reforçou a aposta entre economistas de um novo corte de 0,25 ponto percentual da Selic na reunião do Copom de agosto.
O alívio, porém, veio acompanhado de uma ressalva quase unânime: a escalada recente do petróleo, em meio à tensão entre Estados Unidos e Irã, pode contaminar os próximos índices e limitar o espaço para cortes nos juros.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou nesta sexta-feira (10) que o resultado de junho representou forte desaceleração frente aos 0,58% de maio e levou o acumulado em 12 meses de 4,72% para 4,64%. O índice ainda segue acima do teto da meta, de 4,5%.
Para além do dado cheio, a composição do índice foi o que mais animou os analistas. André Valério, economista do Inter, destaca que a média dos núcleos recuou de 0,45% para 0,21%, acumulando alta de 4,44% em 12 meses e voltando a rodar abaixo do teto da meta, enquanto o índice de difusão caiu de 65% para 54%. “O processo inflacionário dá sinais de que o aperto monetário empreendido nos últimos anos tem surtido efeito”, avalia.
Na visão do Inter, isso permitiria ao Copom manter o atual ciclo de cortes mesmo diante de uma possível reaceleração dos alimentos provocada por um El Niño que tende a ser forte, com pressão concentrada no quarto trimestre deste ano e no primeiro de 2027. O banco projeta cortes de 0,25 ponto em todas as reuniões restantes de 2026, levando a Selic a 13,25% em dezembro.
Leonardo Costa, economista do ASA, observa que a surpresa esteve concentrada na alimentação. Ele destaca que a média dos núcleos registrou a menor variação mensal desde setembro de 2025, mas o quadro geral segue exigindo cautela: o resultado “representa um alívio moderado, mas insuficiente para alterar de forma relevante o diagnóstico de política monetária”, já que a inflação segue acima do teto, as expectativas permanecem desancoradas e a atividade continua resiliente. Ainda assim, avalia que cresce a chance de o BC voltar a cortar 0,25 ponto em agosto.
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Na SulAmérica Investimentos, a economista-chefe Natalie Victal também viu qualitativo “bom”, com surpresa nos núcleos, e avalia que o dado corrobora a virada do balanço de riscos da inflação para 2026, com potencial de leve viés de queda nas projeções do Focus para 2028. – segundo estudos da casa, as expectativas de dois anos à frente são altamente correlacionadas com a inflação corrente.
No entanto, a economista pondera, que o quadro fiscal complexo e a proximidade das eleições devem impedir uma reancoragem mais clara das expectativas, e manifesta preocupação especial com o quarto trimestre, pelo potencial de contágio de um choque altista. “O panorama segue recomendando máxima cautela para o BC”, resume.
Geopolítica ainda preocupa
É justamente no front externo que se concentra a principal ressalva dos analistas. André Matos, CEO da MA7 Negócios, lembra que o IPCA considera preços coletados até o fim de junho e não captura a disparada do petróleo desta semana, com o barril encostando na casa dos US$ 80 após a nova escalada de tensão entre Estados Unidos e Irã.
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“O número tranquiliza no campo doméstico, e a preocupação maior passa a ser o risco importado”, afirma, citando o potencial de contaminação sobre combustíveis, fretes e câmbio.
Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos e novos negócios da Pilar Capital, segue linha semelhante: o índice de junho foi apurado em um período em que prevalecia a expectativa mais otimista após a assinatura do memorando de entendimento entre Washington e Teerã, em 17 de junho.
Com a retomada das hostilidades, um petróleo mais caro pode chegar aos próximos índices via combustíveis, fretes, custos de produção e câmbio. “Se houver nova escalada no Oriente Médio, o Banco Central provavelmente manterá uma postura mais cautelosa”, diz, acrescentando que o Copom também monitora as decisões do Federal Reserve e do Banco do Japão, com potencial de afetar fluxos de capital e o câmbio.
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Peterson Rizzo, head de relações com investidores da Multiplike, avalia que a ameaça ao fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz tem potencial para elevar os preços internacionais da energia, embora a continuidade das negociações entre os dois países reduza, por ora, o risco de escalada militar mais ampla. “O resultado de hoje é favorável para os juros, mas não representa um sinal verde automático para novos cortes”, afirma.
Do lado do crédito, a melhora pode ser gradual. Para Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, o petróleo funciona como risco de cauda – “não determina sozinho a decisão de juros, mas pode alterar rapidamente a percepção de risco” – e o dado tende a mudar mais o grau de confiança do mercado do que a velocidade do ciclo de flexibilização.
Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, lembra que, para quem toma crédito, “o dinheiro ainda continua caro e seletivo no Brasil”, e que uma inflação mais comportada alivia a curva de juros, mas não altera de imediato as condições de aprovação de financiamentos.
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