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O dinheiro barato acabou para sempre; resta saber por quanto tempo | Blogs | CNN Brasil

Ciclos econômicos e políticos são tão difíceis de se antecipar quanto de se interpretar enquanto vividos.

O economista germano-americano Rudi Dornbusch (1942-2002) explicava que, nos movimentos que tangiam a variação de preços de produtos e serviços e a precificação da curva de juros, “as coisas demoram mais para acontecer do que se imagina e, depois, acontecem mais rápido do que se imaginava anteriormente”.

Fato é que o mundo mudou rápido. Resta saber por quanto tempo.

Há pouco mais de seis anos, quando a pandemia de Covid-19 contaminava também o balanço de riscos, o mundo vivia a experiência inversa.

Bancos centrais inundavam a economia global com liquidez para conter os efeitos da pandemia: o BoJ (Banco do Japão) mantinha juros negativos desde 2016, e o BCE (Banco Central Europeu) operava com a taxa de depósito também no território negativo.

O Federal Reserve zerou seus juros em março de 2020.

O dinheiro era, na prática, gratuito — e por tempo suficiente para que uma geração inteira de investidores esquecesse o que significava precificar risco com o chamado carry trade.

Foi esse excesso, somado aos gargalos de oferta da pandemia e à guerra na Ucrânia, que acendeu o processo inflacionário que forçaria a virada mais brusca de política monetária em décadas.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o mundo também viveu seu próprio experimento de dinheiro barato e farto.

Estados Unidos e Reino Unido mantiveram juros artificialmente reprimidos por quase duas décadas — a chamada repressão financeira —, com o Federal Reserve subordinado ao Tesouro americano até o acordo de 1951 que finalmente lhe devolveu autonomia.

Era a lógica de Bretton Woods: câmbio fixo, capital represado e juros baixos para financiar a reconstrução da Europa e o endividamento de guerra, enquanto a inflação corria por baixo do tapete.

Outra vez o mundo emergiu de um choque com liquidez artificialmente barata. E o pêndulo viraria no pós-guerra, como virou de novo.

O Banco do Japão, que passou décadas tentando empurrar a economia para fora da deflação, elevou sua taxa para 1% em junho, o maior patamar desde 1995 — movimento puxado por um choque energético que a nova guerra, desta vez no Oriente Médio, devolveu ao noticiário.

Por sua vez, o BCE encerrou quase três anos de pausa e cortes para subir a taxa de depósito a 2,25% em 11 de junho, depois que a inflação da Zona do Euro voltou a 3,2% em maio, bem acima da meta de 2%.

Dois bancos centrais que simbolizavam, cada um a seu modo, a era do dinheiro barato — um pela deflação crônica, outro pela Zona do Euro fragmentada — hoje apertam seus ciclos monetários ao mesmo tempo.

Nos Estados Unidos, a despeito da série de incursões mal educadas do presidente Donald Trump contra Jerome Powell, então presidente do Federal Reserve, pela manutenção de juros em patamares considerados elevados pela Casa Branca, Kevin Warsh é escolhido sob escrutínio e suspeição justamente para baratear o crédito e fomentar a atividade.

Na cadeira, prevaleceu a institucionalidade: juros mantidos entre 3,5% e 3,75%, comunicado reduzido a 130 palavras, sem qualquer aceno de corte, e o próprio presidente do Fed recusando-se a enviar sua projeção ao “dot plot”.

A ata divulgada nesta semana confirmou uma tendência global: a maioria dos votantes já enxerga ao menos uma alta ainda em 2026, não um corte, dada à pressão inflacionária decorrente do choque de petróleo depois que a guerra no Oriente Médio estourou.

Juro americano mais alto, mesmo que apenas ameaçado, fortalece o dólar e o apetite por títulos em detrimento de qualquer ativo emergente — e o Brasil, historicamente, é dos primeiros a sentir esse refluxo de capital.

Ao contrário do início da guerra, o dinheiro que sairia para financiar mercados emergentes prefere esperar no porto seguro.

Para o Brasil, a conta chega em duas moedas — câmbio mais pressionado e um Banco Central com ainda menos margem para começar a cortar a Selic —, assim como o resto do mundo.

Na sua obra mais célebre, Dornbusch não tratava sobre a condição da política monetária por bancos centrais específicos, mas poderia estar descrevendo exatamente um mundo em movimento, que transforma, de forma abrupta, em castelos de areia.

O mundo mais uma vez mudou para sempre. Resta saber por quanto tempo.

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