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Bets, LiveMode, FFU, Libra e liga da CBF: como crises orbitam o ecossistema do futebol brasileiro

Sócio da LiveMode defende estilo de transmissão da CazéTV: ‘Faz mais gente gostar de esporte’

Crédito: TV Estadão, Marcel Rizzo e Sergio Lopes

A polêmica mais recente do futebol brasileiro acontece justamente no período de Copa do Mundo e envolve a suspensão de propagandas abusivas de bets, principais anunciantes no mercado esportivo atual, em transmissões da CazéTV.

A emissora, que leva o nome do influenciador Casimiro Miguel, é controlada pela LiveMode, empresa de mídia responsável também por negociar os direitos de transmissão da Futebol Forte União (FFU), bloco comercial surgido do racha com a Libra após o insucesso na formação de uma liga unificada sem a CBF por trás.

Agora, a LiveMode também enfrenta questionamentos sobre sua atuação na FFU e no mercado de direitos de transmissão, em meio aos conflitos na Libra e uma reaproximação da CBF para a organização de uma liga no País.

Ministério da Justiça abre investigação por indício de propaganda abusiva de bet na Cazé TV

Departamento de Proteção ao Consumidor cita casos em que transmissão de jogos da Copa é usada para estimular apostas.

Glossário

  • FFU (Forte Futebol União): grupo criado em 2022 por clubes dissidentes que se opuseram à Libra no debate pela criação de uma liga independente no País. O bloco, batizado anteriormente de Liga Forte União (LFU), conta com 28 membros (10 da Série A e 18 da Série B) e negocia os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.
  • Libra (Liga do Futebol Brasileiro): bloco criado em 2022 para discutir a criação de uma liga nacional independente administrada pelos clubes brasileiros. O grupo conta com 9 membros da Série A e negocia os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.
  • CBF (Confederação Brasileira de Futebol): entidade máxima do futebol brasileiro. Fundada em 1914, é responsável pela administração das seleções brasileiras masculina e feminina, pela organização de competições nacionais e a definição de calendários e regulamento do futebol no País.
  • XP: é uma das maiores plataformas de investimentos, serviços financeiros e tecnologia do Brasil. A companhia atua como uma holding financeira que engloba corretora, banco digital, assessoria de investimentos, além de gestoras de fundos e seguros. No esporte, a XP também passou a investir em propriedades de marketing e patrocínios como forma de aproximar sua marca do público.
  • SME (Sports Media Entertainment): empresa especializada na criação, produção, gestão e comercialização de conteúdos e propriedades ligadas ao esporte e ao entretenimento. É investidora da FFU.
  • LCP (Life Capital Partners): empresa de investimentos que atua na estruturação e gestão de negócios. É controladora da SME.
  • LiveMode: empresa brasileira de mídia e marketing esportivo, fundada por Edgar Diniz e Sérgio Lopes. É amplamente conhecida por gerenciar, operar e liderar o projeto da CazéTV.
  • CazéTV: plataforma digital de transmissões esportivas criada pela parceria entre o influenciador Casimiro Miguel e a Livemode. O projeto se popularizou por transmitir de graças grandes eventos esportivos na internet, entre eles as Copas do Mundo de 2022 e 2026.
  • Bet: palavra em inglês que significa aposta. No esporte, é usada para definir empresas e plataformas de apostas online, que oferecem palpites em resultados e eventos esportivos.
  • Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária): entidade responsável por estabelecer normas éticas e fiscalizar a publicidade no Brasil. O órgão recebe reclamações sobre campanhas consideradas inadequadas, enganosas ou abusivas e pode recomendar alterações ou a suspensão de anúncios. Atua por meio da autorregulação do setor publicitário.
  • Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica): autarquia federal vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. É responsável por defender a livre concorrência no Brasil, analisar operações como fusões e aquisições de empresas, e investigar práticas anticoncorrenciais. Suas decisões impactam diferentes mercados, incluindo setores de mídia, esporte e entretenimento.

Cazé TV , Fluminense e Chelsea MetLife 08 de julho de 2025. Foto: William Volcov Foto: William Volcov

Entenda como ecossistema de negócios do futebol brasileiro mudou desde 2021

A “Lei do Mandante”, em vigor desde 2021, tem protagonismo na relação entre torcedor e clube e no debate sobre direitos de transmissão. A partir dela, ficou autorizado que o clube mandante negocie o direito de TV do jogo sem que haja acordo com o visitante. Até então, os dois clubes precisavam ter um acordo com a mesma emissora para que o jogo fosse exibido. Segundo especialistas, a lei do mandante prejudicou a unidade dos clubes em prol da formação de uma liga.

Em 2022, diante do futuro encerramento dos acordos de transmissão do Campeonato Brasileiro dois anos mais tarde, os clubes do futebol nacional se organizaram em blocos para negociações comerciais e de direitos de TV.

A ideia original era a criação de uma liga unificada para organizar o Brasileirão, tirando o mando da CBF. No entanto, divergências entre os clubes geraram um racha: de um lado a FFU; do outro, a Libra. Diante da separação, as ligas tiveram de se limitar a meros blocos comerciais.

A FFU conseguiu atrair clubes da Libra com propostas para antecipação de receitas e pagamentos fixos. O bloco conta com o assessoramento da XP, Alvarez & Marsal, LiveMode e com o investimento da Sports Media Entertainment (SME), que é controlada pela Life Capital Partners (LCP), cujo sócio-fundador é Carlos Gamboa. A viabilização do acordo com a LCP contou com a 1190 Sports como parceira operacional.

A SME adquiriu 20% dos direitos comerciais e de televisão referentes ao Campeonato Brasileiro de cada um dos clubes que compõem a FFU, por 50 anos, até 2074, em uma operação de R$ 2,2 bilhões. Os clubes venderam inicialmente 20% dessas propriedades. Depois, as equipes puderam negociar a redução do percentual para 10%, 15% ou 17%.

Os direitos de transmissão das partidas do Brasileirão das equipes vinculadas à FFU foram comercializados pela LiveMode. A empresa repassou os jogos para Record (TV aberta), Grupo Globo (TV aberta, fechada e pay per view), Prime Video (streaming pago) e CazéTV, canal de sua propriedade (streaming gratuito).

Na última semana, após uma demanda investida pelo CSA, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) expediu uma decisão liminar apontando que a SME não pode criar empecilhos para mudanças de blocos comerciais sob uma pena diária de R$ 250 mil.

Em nota enviada à reportagem, a SME argumenta que “se trata de decisão sem efeitos práticos relevantes, fruto de entendimento incorreto sobre os fatos”. A FFU diz que acompanha “com atenção e cautela os desdobramentos deste tema, ao mesmo tempo em que seguirá integralmente comprometido com o cumprimento de sua Convenção”.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

A FFU contava até a última semana com 10 times da Série A e 18 da Série B entre os integrantes do condomínio. A manifestação do Cade gerou reações imediatas de alguns clubes. Corinthians, Botafogo, Cruzeiro e Goiás enviaram notificações extrajudiciais à FFU, cobrando que o condomínio e a investidora façam mudanças para que se enquadrem nas regras antitruste. Caso o condomínio e a SME não cumpram com as exigências, os clubes prometem deixar o bloco. O Amazonas, que disputa a Série C, entrou com uma ação na Justiça em que questiona a garantia de uma emissão de debêntures de R$ 950 milhões da SME.

O Operário, por sua vez, comunicou sua retirada definitiva e busca pela recompra de direitos de transmissão vendidos anteriormente. O time paranaense, ao comunicar sua saída da FFU, aponta dois problemas que foram discutidos com o bloco comercial. O primeiro deles diz respeito a uma possível concentração de poder e gerência sobre fluxos financeiros nas mãos da SME.

Encontro de Libra e LFU. Blocos vivem instabilidade e discussão sobre liga unificada fica de lado.  Foto: Reprodução/@Flamengo via X

Depois, o clube de Ponta Grossa cita um suposto conflito de interesses na escolha da LiveMode para negociar os direitos de transmissão do Brasileirão, uma vez que a compradora de uma fração dos jogos foi a CazéTV, que tem a LiveMode como proprietária.

O Sindicato Nacional das Associações de Futebol Profissional e suas Entidades Estaduais de Administração e Ligas (Sinafut), a Associação Nacional dos Árbitros de Futebol (Anaf) e a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf) publicaram uma nota assinada coletivamente em que acusam a SME e a LiveMode de construírem e operarem “uma arquitetura que subordina a vontade coletiva dos clubes a seus próprios interesses econômicos por meio do chamado Condomínio Forte União”.

Nos últimos meses, em Brasília, houve movimentações de deputados em relação à FFU e um possível investimento feito por Daniel Vorcaro, do Banco Master, por meio de debêntures conversíveis em ações detidas pelo fundo Astralo 95.

Os deputados Luciano Amaral (PSD-AL) e Pedro Aihara (PRD-MG) questionam a estrutura financeira que envolve investimentos privados nos direitos comerciais de clubes brasileiros. O primeiro iniciou coleta de assinaturas para a abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), enquanto o parlamentar mineiro fez requisições à Fazenda e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A Sports Media usou três fundos para captar dinheiro. Vorcaro teria adquirido R$ 30 milhões em debêntures conversíveis vendidas por distribuidores de ativos. O investimento teria sido feito por meio do Astralo 95, que figura como titular desses títulos.

O Estadão apurou que o fundo Astralo 95 não aparece na lista de investidores diretos da Sports Media. A empresa tem como acionistas os fundos LCP Private Equity 1 e 2 e emitiu uma debênture conversível, detida por outro veículo administrado pela mesma gestora.

O investimento de Vorcaro corresponderia a uma participação minoritária dentro do valor total captado pela Sports Media. São, ao todo, 8 mil cotistas.

LiveMode e CazéTV: entenda o processo de expansão das marcas

A LiveMode gerencia direitos de transmissão de diversos campeonatos. Os parceiros detentores de direitos da LiveMode incluem Fifa, Uefa, Comitê Olímpico Internacional (COI), Federação Paulista de Futebol (FPF) e Comitê Olímpico do Brasil (COB). Entre esses torneios está a atual edição da Copa do Mundo. Todos os 104 jogos foram repassados para a CazéTV. Grupo Globo e SBT/N Sports compraram pacotes reduzidos, com 57 e 32 partidas, respectivamente.

Em 2024, a LiveMode ganhou como sócias minoritárias a XP Private Equity e a General Atlantic. Em novembro de 2025, a LiveMode comprou 100% das ações da CazéTV, e Casimiro Miguel passou a ser sócio global da holding, sediada nas Ilhas Cayman.

A LiveMode foi fundada em 2017 pelos empresários Edgar Diniz e Sérgio Lopes, ex-Esporte Interativo. O streamer Casimiro Miguel e LiveMode começaram atuar juntos ainda em 2020, quando o comunicador passou a transmitir jogos pela plataforma Twitch. O início se deu com um jogo entre Vasco e Athletico-PR pelo Campeonato Brasileiro.

Em 2022, ainda na Twitch, vieram jogos do Campeonato Carioca e um acordo exclusivo para transmitir jogos do Athletico-PR como mandante no Brasileirão, por meio de acesso pago. O projeto da CazéTV foi iniciado em 2022, para a transmissão da Copa do Mundo do Catar.

Mais recentemente, a LiveMode expandiu seu alcance para Portugal e criou por lá a LiveModeTV, que transmite no YouTube um jogo por dia da Copa 2026. Em maio, foi noticiada a entrada do jogador Cristiano Ronaldo como sócio do projeto.

Bets e conflito de interesses: acusações feita à LiveMode e ao projeto da CazéTV

As transmissões da CazéTV foram alvo de críticas de políticos, influencers e usuários das mídias sociais por causa da forma como publicidades de casas de apostas eram exibidas durante os jogos da Copa do Mundo. Participantes das transmissões da emissora, como narradores e comentaristas, citavam as odds – fator multiplicador que indica quanto o apostador receberá caso o evento ocorra – e avaliavam as possibilidades.

O Ministério da Justiça abriu uma investigação contra a CazéTV por “publicidade abusiva” relacionada às bets. Outras emissoras, como Globo, SBT, N Sports e Amazon, serão monitoradas pela pasta.

A Cazé, então, optou por modificar a forma como exibe as propagandas de bets. “As ativações desse segmento passarão a seguir um formato mais tradicional de publicidade”, informou a emissora. A medida entrou em vigor na última quinta-feira.

Na sexta-feira, o Conselho Nacional Auto Regulamentação Publicitária (Conar) recomendou a suspensão de testemunhais de bets nas transmissões da CazéTV. O órgão recebeu reclamações de consumidores e instaurou procedimentos para avaliar publicidades das casas BetNacional, KTO e Bet365.

Em meio a negociações para a venda dos direitos de transmissão da Copa de 2030, Romy Gai, diretor da Fifa, afirmou ao Estadão não ver potencial conflito de interesses pela compra dos direitos de transmissão dos jogos das últimos dois Mundiais pela LiveMode e exibição das partidas na CazéTV.

Segundo Gai, o modelo que vigora entre LiveMode/CazéTV está de acordo com práticas consolidadas na indústria da mídia esportiva. Os acordos, afirma o diretor, foram feitos de forma transparente e contaram com a aprovação da Fifa.

CBF quer liderar criação de liga única, enquanto Xaud balança

Nos últimos meses, ganhou corpo uma movimentação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pela criação de uma liga unificada. Clubes se reuniram algumas vezes no Rio para debater o assunto. A entidade listou problemas sobre o “produto” Brasileirão e pretende tomar medidas em conjunto com seus filiados para resolvê-los e tornar o campeonato mais atrativo.

A CBF entende que deve exercer um papel de protagonismo na criação de uma liga e espera ter sob sua tutela a arbitragem, o calendário, a justiça desportiva e os controles sobre regras e conformidades do fair play financeiro, implementado recentemente no futebol nacional. A entidade espera que até o fim do ano seja colocado em votação o estatuto da liga e se iniciem discussões sobre aspectos comerciais.

Durante os primeiros dias de Copa do Mundo, uma notícia a respeito do presidente Samir Xaud causou alvoroço entre dirigentes de federações estaduais. Informação divulgada pelo jornalista Léo Dias aponta que o mandatário da CBF teria usado dinheiro da entidade para bancar a viagem da esposa e de uma suposta amante aos Estados Unidos. A CBF nega irregularidades.

Samir Xaud vive momento de instabilidade no comando da CBF.  Foto: Pedro Kirilos/Estadão

O Estadão ouviu de diferentes cartolas que Xaud pode estar sofrendo “fogo amigo” para enfraquecê-lo no cargo. Há quem veja que, se o Brasil conquistar a Copa do Mundo, ele poderia ganhar força, já que para a opinião pública seria o presidente da CBF a conquistar o hexa e a tirar o Brasil de 24 anos da fila. E poderia atrapalhar planos sucessórios do grupo que o sustenta.

O poder na CBF, hoje, é dividido entre os dirigentes de federações, da qual faz parte Xaud, e o grupo de Brasília, ligado ao IDP (Instituto Brasileiro de Ensino), instituição que tem como sócio o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. O ministro é apontado como figura de grande influência nos bastidores da confederação.

Seu filho, Francisco Mendes, diretor-geral do IDP e responsável pelo contrato da CBF Academy, já circula pelos bastidores do futebol como vice-presidente da federação do Mato Grosso e tem ganhado cada vez mais protagonismo dentro da CBF, como mostrou o Estadão.

Mendes tem a ideia de comandar a confederação no futuro. Recentemente, decidiu trocar uma atuação discreta de bastidor por uma ação mais explícita em eventos do mundo da bola.

Libra desmorona após acordo entre Flamengo e Grêmio

Turbulências não estão restritas à FFU. Recentemente, a Libra também foi abalada significativamente após a celebração de um acordo para que o Flamengo ganhe R$ 150 milhões a mais dos direitos de TV até 2029. O clube carioca, paralelamente, bonificou o Grêmio com um pagamento total de R$ 24 milhões como gratificação pelo apoio dado ao pleito rubro-negro. A ação causou revolta, principalmente com o Palmeiras, que, em seguida, oficializou sua saída do bloco.

Portanto, atualmente, a Libra conta com nove clubes da Série A. Palmeiras, São Bernardo e Náutico não integram nenhum bloco. O clube alviverde, no entanto, continua atrelado ao contrato que vigora até 2029 com o Grupo Globo.

  • Colaboraram: Marcos Antomil, Rodrigo Sampaio, Ricardo Magatti, Leonardo Catto, Bruno Accorsi e Marcel Rizzo

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