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Camisas mais bonitas Copa do Mundo

Qual é a melhor camisa e a mais controversa da Copa do Mundo?

Estadão conversa com especialistas em moda e colecionador para trazer, em detalhes técnicos, seleções que capricharam e quem ficou devendo nos uniformes. Crédito: Symone Rech e Gabriella Geremias

Além de ser um evento do futebol, a Copa do Mundo é sempre um prato cheio para os amantes de camisas esportivas, já que cada seleção faz um projeto novo para a competição. Com duas semanas em andamento, o Estadão analisou cada uniforme em campo e perguntou para quem entende do assunto: quais são as mais bonitas e quais as mais controversas?

Foram entrevistados o colecionador e recordista do Guinness como maior detentor de peças, Cássio Brandão, a especialista em moda masculina Gabriella Geremias e a consultora de tendência e mercado da moda Symone Rech. Eles avaliaram, tecnicamente, quais os projetos mais consistentes, quem inovou e os que fugiram muito da proposta.

Camisa titular do Brasil na Copa do Mundo de 2026 é uma das mais bonitas do torneio, para especialistas ouvidos pelo Estadão. Foto: Angela Weiss/AFP

O objetivo não é trazer avaliações opinativas, mas técnicas em aspectos como: inovação, personalidade, conexão com o país, riqueza cultural e função desportiva e de moda. Isso porque os uniformes, hoje, são produtos de moda, tecnologia e branding.

“As grandes marcas esportivas entenderam isso há muito tempo. Elas já não disputam apenas quem faz o uniforme mais bonito. Disputam quem consegue construir a narrativa mais forte”, conta Symone, que usa como um de seus critérios se a camisa segue interessante quando acaba o jogo.

Vale lembrar que modernidade, ou mesmo ousadia, não significa automaticamente beleza. Se ela não for reconhecível e não conversar com o consumidor, perde pontos, para Gabriella. “Quando alguém tenta parecer algo que não é, a mensagem se torna confusa. No futebol, a regra é a mesma, a imagem mais forte não é a que chama mais atenção, mas que comunica com clareza quem você realmente é”, diz.

AS CAMISAS MAIS BONITAS:

  • África do Sul: uniforme reserva

Uniforme reserva da África do Sul na Copa do Mundo carrega combinação ‘premium’ com verde-escuro e dourado. Foto: Reprodução/adidas.com

A África do Sul ainda não utilizou sua segunda camisa na Copa do Mundo, ao menos até o inicio da terceira e última rodada da fase de grupos, mas é uma das mais elogiadas. Para Gabriella, a escolha pelo verde com detalhes em amarelo é coerente e traz uma pitada de nostalgia.

“Optou por por um uniforme baseado em memória, pertencimento e representatividade”, opina a especialista. “Encontra sua maior força ao resgatar a memória da Copa de 2010, primeiro Mundial realizado em solo africano”.

A escolha por tons mais escuros junto ao dourado ainda carregam uma sofisticação, maturidade e ideia de exclusividade. “Eleva a um padrão visual mais premium do que a média da Copa do Mundo”, avalia Gabriella.

Danilo Santos vestindo a tradicional camisa amarela do Brasil, uma das de maior sucesso entre especialistas na Copa. Foto: Adam Hunger/AP Photo

A camisa da seleção brasileira foi alvo de muitas polêmicas antes da Copa do Mundo, por conta do uniforme vermelho e do “Vai, Brasa”, inicialmente estampado na gola. A versão final, sem a frase, agradou aos que trabalham com moda e acertou.

Symone acredita que o manto do Brasil carrega um “patrimônio visual” muito forte e que, assim, traz um desafio para ser atualizado, algo que a versão do torneio conseguiu fazer, sem perder a essência. “Consegue fazer isso através da construção gráfica e tecnologia aplicada ao tecido, mantendo intacto um dos maiores ativos de branding do esporte mundial”, diz a consultura em moda.

Gabriella segue a mesma linha e reforça a identidade com o País aliada à cultura jovem. “Preserva o amarelo canarinho clássico e o verde, com referências à criatividade e energia da cultura brasileira. O conceito é uma tentativa de aproximar a seleção de uma linguagem mais jovem, urbana e ligada à cultura streetwear“, explica.

  • Espanha: uniforme titular

Camisa da Espanha não abandona tradição de ‘la roja’, como é conhecida, e é uma das mais bem avaliadas da Copa do Mundo. Foto: Mike Stewart/AP Photo

Olhar para uma camisa e reconhecer sua bandeira favorece muito a identificação, segundo Gabriella. E o uniforme da Espanha não abre mão de mostrar o vermelho com amarelo tão tradicional da campeã de 2010 e que remete ao ‘tiki-taka’ só de olhar.

Além de reforçar a tradição da ‘La Roja’, como é conhecida, a seleção europeia ainda trouxe o fator “elegância” para o torneio na América do Norte. “Descreve como celebração da elegância do futebol espanhol e aposta na sofisticação discreta em vez de elementos criativos”, explica a especialista.

“Uma camisa refinada, que transmite autoridade no futebol. As listras verticais finas remetem à alfaiataria masculina, tornando-a mais elegante tecnicamente; e as douradas ajudam a criar um visual mais refinado. O azul-marinho cria contraste com o vermelho, trazendo profundidade visual e aparência mais clássica”, completa Gabriella.

  • França: uniforme titular

Mbappé é o maior ‘expoente’ da camisa da França na Copa do Mundo graças à busca pelo recorde da artilharia histórica. Foto: Franck Fife/AFP

A França veio com um azul diferente nesta Copa, intercalando detalhes escuros e claros. A aposta foi certeira e, para Cássio, elevou o patamar da atual vice-campeã. “Talvez, a combinação de camisa, shorts e meias mais perfeita entre as seleções”, determina o colecionador. “E com o galo gigante e dourado no peito, minimalista e imponente”.

Symone classifica essa presença como elegante e concorda que os europeus acertaram na ideia do ‘quanto menos, melhor’. “A elegância continua sendo uma vantagem competitiva. Em um cenário em que muitas seleções buscam chamar atenção pelo excesso de informação, a camisa aposta na precisão”, continua.

A consultora em moda conclui com o recado de que é possível um uniforme ser simples sem perder detalhes e nuances técnicas. “É um projeto que transmite refinamento e mostra que simplicidade e sofisticação não são conceitos opostos”, conclui Symone.

  • México: uniforme titular

Com Julian Quiñones se destacando, o México foi o primeiro a se classificar para o mata-mata da Copa do Mundo e vem dando show também com a camisa. Foto: Natacha Pisarenko/AP Photo

Jogando em casa e cumprindo as expectativas sendo o primeiro classificado ao mata-mata, o México incorporou seu folclore e referências históricas no uniforme, tanto no titular quanto no reserva. O projeto agradou, principalmente, pela dose certa entre decoração temática e narrativa.

“Arte folclórica mexicana e artesanato asteca juntos, com detalhes em verde e vermelho nos ombros (em referência à camisa reserva). Fusão perfeita de futebol e identidade cultural”, elogia Cássio, que coloca os dois mantos de jogo no mesmo patamar.

Trazer aspectos de sua geografia transforma a camisa em um projeto “autoral”, de acordo com Symone: “A camisa incorpora códigos visuais do país e cria uma narrativa própria, não apenas decoração temática. Projeto com personalidade; depois de vê-la, você lembra dela”.

Tradicional uniforme azul do Japão traz elementos futurísticos na Copa do Mundo de 2026 e é bem avaliado por especialistas. Foto: Julio Cesar Aguilar/AFP

Nos melhores termos futebolísticos, Cássio chama a clássica camisa azul do Japão de um “golaço da Adidas”. A fornecedora trouxe a tradicional cor e aliou a detalhes gráficos tridimensionais, que segundo os especialistas, foram bem implementados.

“Remetem a chamas azuis e fumaça, inspirados na cultura dos mangás e na energia jovem do país. Moderna, agressiva e absolutamente estilosa”, analisa o recordista entre os colecionadores, mais uma vez agradado pela escolha de inserir nuances de um povo no uniforme.

Symone, por sua vez, acrescenta que os japoneses conseguiram transmitir identidade sem precisar explicá-la. “Talvez por isso que funciona tão bem como peça de moda”, diz. “Hoje, sofisticação está na síntese. Em vez de carregar a camisa de elementos gráficos ou símbolos óbvios, o projeto aposta em equilíbrio, proporção e construção visual”.

MENÇÕES HONROSAS:

  • Alemanha: uniforme titular; Coreia do Sul: uniforme titular; e Marrocos: uniforme titular

Alemanha, Coreia do Sul e Marrocos também se destacam nos uniformes da Copa de 2026. Foto: Montagem: Chris Young/The Canadian Press via AP; Matias Delacroix/AP Photo e Mauro Pimentel/AFP

A Alemanha manteve as raízes e levou à Copa uma lembrança do design de 1994, muito elogiado por Cássio. “E ainda por cima, a Adidas está abusando do uso de mangas longas, que precisam voltar”, opina.

Enquanto isso, a Coreia do Sul seguiu a tendência de valorizar culturas do país, ponto valorizado por Gabriella. “Ancorada em símbolos profundamente coreanos; o tigre como emblema de coragem e força e as pinceladas que remetem à arte tradicional oriental”, analisa.

A especialista em moda masculina usa do mesmo argumento para apontar o uniforme de Marrocos como um a ser lembrado. “É a camisa que mais traduz cultura nacional com os mosaicos; transmite exatamente aquilo que o futebol marroquino representa hoje: orgulho cultural, competitividade e ambição global”.

AS CAMISAS MAIS CONTROVERSAS:

  • Argentina: uniforme reserva

Camisa reserva da Argentina não respeita ‘coerência’ de peças mais antigas. Foto: Reprodução/adidas.com

Outro uniforme que ainda não deu as caras na Copa do Mundo de 2026, ao menos até a segunda rodada, a camisa reserva da Argentina é bem diferente do tradicional. A tentativa, porém, não foi bem vista por alguns especialistas.

Gabriella acredita que a proposta privilegia inovação e impacto visual, mas sacrifica códigos que construíram a identidade da seleção ao longo das décadas. “Comunica criatividade, modernidade e experimentação, mas menos tradição, pertencimento e reconhecimento imediato. Bonita? Sim. Argentina? Nem tanto”, explica a consultora.

“Enfraquece justamente aquilo que tornou a seleção campeã do mundo instantaneamente reconhecível: sua identidade visual”, acrescenta a mentora em imagem. Essa individualidade acabou ficando na clássica camisa listrada titular.

  • Bélgica: uniforme reserva

Segunda camisa da Bélgica traz diversos elementos que “competem entre si”, analisa especialista. Foto: Reprodução/adidas.com

Às vezes, uma fórmula consagrada não precisa de muitas modificações e mais informação. O uniforme reserva da Bélgica buscou a inovação e acabou não só se afastando de sua originalidade como criou elementos que “competem entre si”, segundo Symone.

“No design, mais informação nem sempre significa mais identidade. Em alguns momentos, significa apenas mais ruído”, explica a consultora, que considera a camisa como uma das ‘polêmicas’ da edição.

“A proposta da Bélgica reúne diversos elementos gráficos que competem entre si e acabam enfraquecendo a leitura do conjunto. O problema não é ousar, mas perder hierarquia visual”, adiciona.

Camisa reserva do Brasil para a Copa do Mundo seria vermelha, mas polêmica fez voltar a ser o azul tradicional, que ainda sim foi criticado. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Quando a CBF anunciou a parceria entre Nike e Jordan, resultando em uma camisa reserva vermelha, a polêmica tomou conta da internet, pois iria mudar uma cor tradicional do uniforme para a Copa. A entidade voltou atrás, mas o azul original também não foi unanimidade.

De acordo com Gabriella, o modelo para a Copa de 2026 funciona como produto de moda, mas peca na representação esportiva da seleção. “Em vez de remeter imediatamente ao Brasil, os grafismos permitem interpretações muito diferentes entre si, algumas delas pouco positivas”, analisa.

“Em uma Copa do Mundo, onde a identidade precisa ser instantaneamente reconhecida, essa falta de clareza enfraquece a mensagem do uniforme. E causa má impressão. Embora moderna e comercialmente forte, apresenta poucas referências evidentes à diversidade cultural brasileira”, complementa.

  • Canadá: uniforme reserva

Uniforme do Canadá dialoga pouco com a história e cultura do país, um dos três anfitriões da Copa do Mundo. Foto: Alex Grimm/Getty Images via AFP

“Potencial desperdiçado”, é assim que Symone resume o projeto do Canadá para a Copa do Mundo de 2026. Um dos três anfitriões do torneio veio sem identificação com sua cultura e com solução visual genérica, de acordo com a consultora em moda, apesar de até conter acertos técnicos.

“Falta personalidade, que hoje é um dos principais ativos de um uniforme”, destaca a especialista. “Talvez seja o maior exemplo de potencial desperdiçado. Um país com enorme diversidade cultural e forte presença no design contemporâneo entrega uma solução visual genérica, que poderia representar inúmeras seleções“, adiciona.

Gabriella concorda e cita quais elementos poderiam ter sido representados na camisa reserva. “Abandona símbolos historicamente ligados ao país, como a folha de bordo, as paisagens naturais e as cores tradicionais. Tenta enfatizar estética contemporânea, mas pouco dialoga com a história da seleção canadense ou com a narrativa do país como anfitrião da Copa”, explica.

Camisa de Gana, apesar de trazer referências culturais, ficou com ‘aspecto infantil’, segundo especialista em moda masculina. Foto: Reproduçao/PUMA

A camisa titular de Gana também não foi utilizada até a segunda rodada da Copa do Mundo e traz grande carga cultural, mas faltou caprichar na execução, acredita Gabriella. O uniforme traz como inspirações o Mercado Makola de Accra e o tradicional tecido Kente, típico do país.

“Gera dúvidas por aproximar-se de uma linguagem ilustrativa e pouco associada ao universo do esporte de elite”, explica a especialista em moda masculina. “O grafismo adotado transmite uma sensação mais próxima do universo lúdico do que da alta competição esportiva”, segue.

Em suma, Gabriella crê que o conjunto remeteu mais a peças infantis do que a camisa de uma equipe de alto desempenho, ainda que tenha tentado incluir vários aspectos da história ganesa. “A riqueza cultural é evidente, mas a leitura visual não remete ao universo do futebol, e sim de roupa infantil. Em primeiro olhar, parece mais peça artística ou conceitual”, conclui.

MENÇÕES DESONROSAS:

  • Áustria: camisa reserva; Catar: camisa titular; e Inglaterra: camisa reserva

Camisas de Áustria, Catar e Inglaterra receberam ‘menções desonrosas’ por falta de clareza no conteúdo. Foto: Reprodução/PUMA; Reprodução/Adidas e Reprodução/Nike

Para a Áustria, segundo Gabriella, faltou uma leitura mais imediata e facilitar a identificação da inspiração cultural. “Apresenta uma camisa conceitualmente interessante, mas que exige explicação para ser compreendida. Não me inspira confiança”, explica.

O uniforme titular do Catar até cumpre a função esportiva, mas falta conexão emocional, avalia Symone. “Apresenta linguagem excessivamente neutra e institucional. Funciona como equipamento técnico, mas deixa escapar a oportunidade de se transformar em objeto de desejo”.

E ela expõe pensamento semelhante a respeito da Inglaterra, que traz camisa reserva e até a titular “previsíveis”:“Em um momento em que o esporte conversa cada vez mais com moda e cultura, permanecer preso às mesmas soluções reduz o impacto do projeto”.

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