Há um mês, na propaganda eleitoral, Pernambuco era o melhor lugar do mundo para se viver. Bastou a urna fechar para a fatura chegar. Em menos de dez dias, o servidor estadual ficou sem hospital no interior, o combustível e o gás de cozinha ganharam aumento de imposto já contratado e a conta de água tem reajuste marcado. E a governadora Raquel Lyra, que tinha tempo de sobra para gravar vídeo em campanha, chorar, correr em estradas recapeadas, entregar obras e ônibus do governo federal, e até mandar “fazer sem ela saber”, agora simplesmente sumiu.
Sassepe: o servidor paga e não é atendido
Os maiores hospitais credenciados de Caruaru e Arcoverde suspenderam por 30 dias o atendimento aos usuários do Sassepe. Na prática, o servidor do Agreste e do Sertão que precisar de consulta, exame ou cirurgia vai ter que se virar, ou correr para o SUS, enquanto continua vendo o desconto cair todo mês no contracheque. Em Arcoverde, a presidência do Sassepe impôs um teto financeiro mensal aos prestadores, e o Hospital Memorial já suspendeu o atendimento de quem passou do limite neste mês. A restrição ameaça quem depende da unidade para emergência, UTI, tratamento de câncer, exames e cirurgias. “Não estão pedindo favor. Estão cobrando um serviço pelo qual pagam todos os meses”, reagiu o presidente da Câmara Municipal, Luciano Pacheco (MDB).
A Assepe, que representa os beneficiários, divulgou nota de repúdio e afirmou que o governo segue desrespeitando os usuários do Sassepe “no seu direito à vida”. A maioria é de idosos, que já esperam seis meses ou mais por procedimentos. E a entidade faz questão de lembrar o óbvio: ninguém ali é inadimplente. O Sintepe, sindicato dos trabalhadores em educação, assinou embaixo das cobranças.
E a governadora? Não dá as caras. Quando o problema aperta, Raquel deixa a resposta com a estrutura do governo, e desta vez nem isso: o Iassepe, instituto que administra o Sassepe, foi procurado e não se manifestou. Quem pediu voto ao servidor há poucas semanas agora não tem uma palavra para dizer a ele. Falta coragem para assumir o que é responsabilidade dela.
ICMS: aumento aprovado dois dias depois da eleição
No dia 27 de outubro, apenas dois dias depois do segundo turno, os estados aprovaram por unanimidade no Confaz o aumento do ICMS sobre os combustíveis, com o voto de Pernambuco. O imposto do diesel sobe de R$ 1,17 para R$ 1,30 por litro, alta de 11,1%. Na gasolina, passa de R$ 1,57 para R$ 1,64. No gás de cozinha, de R$ 1,47 para R$ 1,54 por quilo. Os novos valores valem a partir de 1º de fevereiro de 2027.
A lei não obriga ninguém a aumentar. Os estados podiam manter ou até reduzir os valores. E não falta memória: em março, Lula propôs que os estados zerassem o ICMS do diesel, com o governo federal bancando metade da perda de arrecadação, para segurar o preço na bomba. Os estados recusaram. Só o Piauí aceitou. Pernambuco, não.
O roteiro é conhecido. O diesel mais caro encarece o frete, o frete encarece a comida, e quando o preço subir no posto e no supermercado, vão tentar jogar a conta no colo de Lula e do governo federal. Só que quem levantou o braço para aumentar o imposto foram os estados, Pernambuco incluído. Não adianta fingir que a decisão foi de Brasília.
Compesa: o dinheiro foi para o palanque e a conta fica com o povo
A concessão da Compesa rendeu ao estado uma outorga de R$ 4 bilhões, com R$ 2,4 bilhões pagos na assinatura. Em abril, em pleno ano eleitoral, Raquel subiu ao palco do congresso da Amupe e entregou cheques simbólicos a prefeitos, numa primeira distribuição de R$ 1,3 bilhão. Ela mesma admitiu que a divisão do dinheiro foi “uma escolha política”. Foi mesmo. E com calendário marcado: prefeito com cheque na mão vira cabo eleitoral.
Do outro lado da torneira, a conta chega para o povo. O contrato prevê o primeiro reajuste em novembro, logo depois da eleição, calculado pela inflação acumulada desde setembro de 2023, perto de 15%. Na campanha, Raquel chamou de mentira quando a oposição avisou do aumento. No debate de 1º de outubro, acabou confessando: “Vai ter reajuste, sim, na conta da Compesa”.
O deputado federal Pedro Campos alerta que a concessão atrasou e pode deixar um prejuízo de R$ 3 bilhões para a parte pública da Compesa, com aumento de mais de 600% na tabela de serviços. As empresas assumem a operação sem que a população saiba a quem recorrer quando a água faltar, e quem já convive com torneira seca agora vai pagar mais caro por ela.
A propaganda acabou
Sassepe sem atendimento, imposto maior nos combustíveis e conta de água mais cara. Os três problemas têm a mesma assinatura e a mesma fórmula: muito marketing na campanha e silêncio depois dela. Raquel Lyra foi eleita para governar Pernambuco, não para se esconder atrás de assessoria. Está na hora de a governadora aparecer, dar explicações e assumir a responsabilidade que é dela.
Por: TonyLucas/ focobr.com




