Um relatório produzido pela equipe digital do PT, a pedido da campanha de Lula, reuniu 3.202 denúncias de possíveis irregularidades nas redes da Meta: bloqueios, perda de alcance e tratamento diferente entre Lula e Flávio Bolsonaro no Instagram, Facebook e WhatsApp. A oito dias do segundo turno, quando uma plataforma que decide o que milhões de brasileiros veem é acusada de pesar a balança, não estamos diante de um detalhe técnico. É uma afronta à nossa democracia.
O caso mais simbólico é o da inteligência artificial da própria Meta. Segundo o relatório, a Meta AI se recusava a criar imagens de bandeiras com “Lula 13”, mas aceitava pedidos idênticos com “Flávio 22”. A diferença foi confirmada em testes independentes, e a empresa disse depois que tomaria medidas para corrigir o problema. Um erro que sempre pende para o mesmo lado deixa de parecer acaso.
Há também a conta de anúncios do presidente. Em 23 de setembro, 11 dias antes do primeiro turno, ela foi desativada e só voltou cerca de uma hora depois. A Meta atribuiu o episódio a erros no tratamento de restrições anteriores. Em 9 de outubro, veio novo bloqueio ao impulsionamento de publicações de Lula. A empresa disse que uma falha global atingiu mais de 3 mil anunciantes, mas, segundo o relatório, ainda não apresentou provas disso.
Os números de alcance chamam atenção. Entre 1º e 7 de outubro, segundo o levantamento, os Reels de Flávio tiveram média de 15,64 milhões de visualizações, contra 5,91 milhões dos de Lula, mesmo com o senador tendo menos seguidores. Nas curtidas e comentários, a média do filho do ex-presidente ficou perto de três vezes a do presidente. Quem manda no algoritmo manda no debate.
No WhatsApp, o relatório aponta que a busca por “Exército do Lula” exibia o canal “Tropa do Flávio”, mas a busca contrária não trazia canais ligados a Lula. Também registra interrupções na contagem de visualizações do Instagram em 7 de outubro. Cada episódio, isolado, a Meta pode chamar de falha. Juntos, formam um padrão que o eleitor tem o direito de enxergar.
O canal Censura Digital, da campanha, recebeu 3.202 denúncias consideradas válidas entre 11 e 16 de outubro, ligadas a 2.936 perfis. O Instagram responde por 58% do total, e 84% dos denunciantes dizem não ter recebido justificativa. É preciso ser honesto: apenas 57 foram verificadas individualmente, e a maioria é relato dos próprios usuários. A Meta reconhece problemas técnicos, mas nega que tenha favorecido candidato. Negar é fácil; difícil é explicar por que o prejuízo se repete.
A Justiça Eleitoral já agiu. O ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que a Meta garanta tratamento igualitário às candidaturas até o fim do segundo turno, sob multa diária de R$ 500 mil, e o TSE confirmou a decisão por unanimidade na sexta-feira (16). Se foi preciso ameaçar com meio milhão de reais por dia para que uma empresa trate dois candidatos de forma igual, o recado está dado.
O relatório pede limites a mudanças no algoritmo que não valham para todos, revisão humana antes de bloquear contas de anúncios eleitorais, ação contra propaganda irregular e verificação de conteúdo sintético. É o mínimo. Eleição não é produto de rede social, e nenhuma big tech estrangeira pode ter o poder de inclinar o voto dos brasileiros. Quem defende a democracia não pode se calar diante disso.
Por: TonyLucas/ focobr.com




